Precisamos de foco para protegermos nossas crianças

Precisamos de foco para protegermos nossas crianças

 

Eugênio Ricas é Delegado
Federal, Adido da PF nos
EUA, Mestre em Gestão
Pública pela UFES

            Esta semana uma notícia amplamente divulgada pela imprensa chocou o Brasil. Ficamos, a maioria de nós, atônitos e consternados com a violência sofrida por uma menina de apenas 10 anos de idade, de São Mateus/ES. Conforme noticiado, a garotinha começou a ser violentada sexualmente a partir dos 6 anos, pelo marido de sua tia. Foram infinitos 4 anos, sofrendo as mais inimagináveis formas de violência, impostas por uma pessoa considerada “da família”.

            A vítima, que mora com os avós, convive, desde sempre, com as agruras e violências que jamais deveriam ser impostas a uma criança. Ainda mais novinha perdeu sua mãe. O pai, condenado por algum crime, é presidiário. Restou aos avós, que ganham a vida vendendo cocos na praia, a missão de proteger, educar e amar aquela criança. Fizeram o que estava ao alcance. Não contavam, no entanto, com a perversão e monstruosidade que habitam alguns seres humanos. Contavam, menos ainda, com o fato de que um desses monstros estava bem ali, na sua própria casa.

            Como se não bastassem todas as adversidades e sofrimentos impostos àquela criança, um dos estupros a que foi submetida acabou engravidando-a. Conforme seu relato à polícia, por inúmeras vezes, seu “tio” a violentou física e emocionalmente. Foram anos de estupros e ameaças, para que ficasse calada. Por quatro anos suportou, solitariamente, todo o peso da violência que lhe foi imposta. Quis o destino que a gravidez indesejada, fruto de um ato desumano, covarde e brutal, revelasse ao Brasil o mundo de terror imposto àquela criança.

            Um dado divulgado em 2019, pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública é estarrecedor. O Brasil registra uma média de 180 estupros por dia! Foram 53.726 casos registrados no ano de 2018. Do total dos casos de violência sexual, as mulheres representam 81,8%, sendo que 53,8% das vítimas tinham até 13 anos de idade. Os números demonstram que a cada hora, 4 crianças são estupradas no país!

            Os números evidenciam a carência absoluta de políticas públicas eficientes que previnam e reprimam, de forma eficaz, a violência contra a mulher e, especialmente, a violência sexual contra crianças e adolescentes. Estamos sendo incapazes de proteger nossas crianças de um dos crimes mais terríveis que podem atingir um ser humano. Crianças e adolescentes violentados levam, por toda a vida, profundas cicatrizes na alma. As sequelas impostas, por exemplo, àquela menininha de São Mateus/ES são inimagináveis e durarão para sempre. Do alto de seus 10 anos de idade ela também precisou passar por um aborto. É violência demais e esperança de menos para uma vida tão curta. Ou estabelecemos como prioridade a proteção às nossas crianças, ou nunca seremos uma sociedade realmente evoluída. Não temos mais tempo a perder! Aliás, num cenário como este, discutir qualquer outro tema que não seja a proteção à infância é falta de foco, de humanidade e de compromisso com o que realmente importa!



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