Quem está por trás do surgimento de uma pista aérea no instável Iêmen?

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A Ilha Mayyun ou Perim pode ser um pequeno amontoado de rocha vulcânica varrida pelo vento na entrada do Mar Vermelho, especificamente no Estreito de Bab Al-Mandeb, situada a menos de cinco milhas da costa do Iêmen, mas sua captura em 2015 pelas forças árabes do Iêmen e de aliados durante a Guerra Civil contra o grupo Houthis apoiado pelo Irã foi uma vitória bem-vinda para a região, por ser um dos territórios estratégicos mais importantes do mundo.

Mayyun tem a forma de um caranguejo, 5,6 km de comprimento e 2,8 km de largura. Perim abrange um porto natural profundo e relativamente grande na costa sudoeste, e possui uma vila de pescadores no fundo da baía.

A pesca e o transporte de óleo bruto pela rota marítima cruzando Mayyun ainda são ameaçados pela pirataria, sequestro e ataques contra embarcações de bandeira definidas como inimigas pelos movimentos terroristas locais.

Com a segurança local retomada, o fluxo marítimo mais íntegro e as forças locais dispersando agentes hostis, o governo do Iêmen e aliados decidiram transformar a ilha numa base de defesa.

Imagens de satélite mostram que, no início deste ano, começou a construção de uma nova pista de aproximadamente 1.874 m de comprimento na porção noroeste Perim, uma área incrível que liga o Mar Vermelho e o Golfo de Aden.

Conforme discorre Joseph Trevithick no The War Zone, além de sua localização dentro deste entroncamento marítimo crítico, que é uma rota importante para navios de guerra e comerciais, ocorre a construção de uma pista de pouso que teve início entre 18 e 22 de fevereiro deste ano.

Há também duas novas pequenas estruturas semelhantes a hangares que apareceram em uma plataforma de concreto ao sul da pista, e faz parte de um avental que sobrou de um projeto separado, agora inativo, que começou em 2016 e que estava desenvolvendo uma base aérea com uma pista de quase 3 mil metros de comprimento.

O mais interessante está nas infraestruturas adjacentes sendo construídas que, segundo analistas, sugerem ser espaços a um futuro sistema de defesa aérea ou sistemas de guerra eletrônica. Há também possibilidade de instalar algum tipo de radar de busca aérea e/ou de superfície.

Sobre quem está realizando esse trabalho e qual é o seu objetivo final, não está claro, mas os Emirados Árabes Unidos, assim como a Arábia Saudita, são possibilidades distintas e fortes como fontes de investimentos ao Iêmen. Já houve uma discussão significativa sobre esta construção estar ligada aos Emirados Árabes Unidos.

Isso segue imagens de satélite anteriores obtidas pela The Associated Press, indicando que os emirados haviam desmontado muitas, senão todas as suas instalações em Assab, no país da África Oriental da Eritreia, do outro lado do estreito de Bab Al-Mandeb, em algum momento entre janeiro e fevereiro deste ano.

Os Emirados Árabes Unidos começaram a expandir o aeródromo e as instalações portuárias em Assab poucos meses depois que, como parte de uma coalizão liderada pela Arábia Saudita, interveio no Iêmen para repelir rebeldes Houthi apoiados pelo Irã.

Essa base eritreia tornou-se um centro importante para a contribuição dos Emirados Árabes Unidos para essa campanha, incluindo uma base avançada para lançar ataques aéreos contra os Houthis e um ponto através do qual canalizava várias forças, incluindo tropas sudanesas e mercenários estrangeiros, para a Península Arábica.

É certamente possível que algumas das forças dos Emirados Árabes que estavam baseadas em Assab agora tenham ou irão se deslocar rumo a Perim. O Intel Lab, responsável pelas imagens de satélites recentes, sugere que as duas novas estruturas levantadas podem abrigar um pequeno contingente militar, com pelo menos parte desse espaço servindo como QG.

Além disso, a pista que está sendo construída agora seria definitivamente longa o suficiente para suportar aeronaves de transporte aéreo tático, como os C-130s, bem como os aviões de transporte Boeing C-17A Globemaster III dos Emirados Árabes Unidos, entre outros tipos.

Quem está por trás das obras pode estar ansioso para estabelecer um posto avançado extremamente estratégico nesta já crítica passagem marítima. Com relação apenas aos Houthis, um campo de aviação na ilha poderia servir como um importante centro de operações dentro e ao redor do Iêmen, incluindo contrabando, patrulha marítima e até operações anti-submarino, entre outras.

No ano passado, curiosamente, o governo dos EUA aprovou a possível venda de drones MQ-9B com vigilância marítima e capacidade anti-submarina, entre outros itens, para os Emirados, ações muito contestadas pela Administração Biden.

Assim, a morfologia da base aérea em Perim vai tomando forma e busca o mesmo objetivo das instalações em Assab administradas pelos Emirados, dissuadir terroristas locais e fornecer segurança às embarcações comerciais e de pesca por toda a entrada do Mar Vermelho.

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