Seminário “150 anos da Passagem de Humaitá: história, memória e representações”

No último dia 27 de setembro a Diretoria de Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha (DPHDM), promoveu o Seminário “150 anos da Passagem de Humaitá: história, memória e representações”. O evento ocorrido nas dependências do Instituo Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), reuniu especialistas e historiadores, onde os quais procuraram esmiuçar o que fora a tomada da Fortaleza do Humaitá pelas forças Brasileiras. Um de seus palestrantes, o Sr.º Eduardo Nakayama apresentou as fortificações que existiam na fortaleza. Assim, a publicação deste artigo serve para elucidar o que fora apresentado pelo palestrante, no evento supracitado



A Fortaleza de Humaitá: entre o mito e a realidade

Por: Eduardo Nakayama

A Fortaleza de Humaitá foi a obra mais importante de engenharia militar da República do Paraguai, realizada na Época dos López (1841- 1870). Ainda que, desde os tempos do Doutor José Gaspar Rodríguez de Francia, na Época da Independência (1811-1840), já existisse ali uma guarda fluvial, tal guarda era modesta e a sua construção materializou-se só depois do grave conflito diplomático com o Império brasileiro, que derivou na expedição do Almirante Pedro Ferreira de Oliveira (1854-1855) e outro impasse internacional, neste caso com os Estados Unidos, após o incidente com o navio Water Witch.

Durante a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870), a Fortaleza de Humaitá, no Quadrilátero paraguaio, foi o centro vital da defesa paraguaia e em torno da qual se desenvolveu a maior parte do conflito bélico, durante a Campanha de Humaitá (1866-1868). Quando explodiu a Guerra da Tríplice Aliança, existiam três fortificações no sistema fluvial Paraguai-Paraná-Prata que buscavam servir como “barreiras” para hostilizar os adversários em caso de conflito:

  1. a Ilha Martín García, no Prata, controlada pela Argentina;

  2. Humaitá, ao norte da confluência dos Rios Paraguai e Paraná, controlada pelo Paraguai; e

  3. Coimbra (no alto Rio Paraguai, controlada pelo Império do Brasil).

Destas três, a primeira estava em fase de construção, não representando um perigo real em caso de ataque massivo e, portanto, não podia garantir um bloqueio no Prata, enquanto que a Fortaleza de Coimbra, no alto Paraguai, apresentava um outro aspecto, diferente do atual e embora tivesse elementos suficientes, faltava uma Força organizada para fazer frente a uma invasão como a paraguaia, ocorrida no final de 1864.

Portanto, Humaitá era a única que cumpria sua função incutindo medo e respeito, mesmo que superestimada pelas Forças aliadas, que demorariam mais de dois anos para sitiá-la completamente e forçar seu abandono. Clausewitz sustenta que a defesa tem por objetivo deter um golpe e, portanto, a característica de uma boa defesa estará determinada pela capacidade de esperar e suportar esse golpe.

A Fortaleza de Humaitá representa então, por excelência, a defesa paraguaia, seu centro nevrálgico e onde esperava que o principal ataque dos aliados para forçar sua entrada e avançar para Assunção, o segundo objetivo como hinterland paraguaio, em caso de que os aliados não optassem por contornar aquela defesa ou rendê-la por fome e bloqueio.

Em todos os planos de guerra esboçados pelos generais imperiais no início do conflito, se alude direta ou indiretamente à fortaleza de Humaitá, e enquanto a maioria concordou com a necessidade de superar essa posição, outros sugeriram flanqueá-la total ou parcialmente em operações diferentes ou combinadas para evitar o choque, mas essas alternativas foram descartadas, sobretudo depois das ofensivas paraguaias ao sul, e a aliança do Império com a Argentina, que determinaram que a direção do ataque ou contraofensiva aliada se desse em direção ao norte, tendo Corrientes como base operacional.

Localizada na margem esquerda do Rio Paraguai, ao sul de Assunção e dos vilarejos de Villa del Pilar e Villa Franca de los Remolinos; e ao norte de Paso de Pátria e Itapiru. Favorecida pela sua localização, a fortaleza controlava o acesso por via fluvial à capital, constituindo-se no mais poderoso e temido bastião do sistema defensivo paraguaio. Porém, durante a época do Doutor Gaspar Rodríguez de Francia (1765-1840), Humaitá não passava de um austero posto de guarda e foi assim até a primeira parte do governo de Dom Carlos Antonio López.

A autoria da concepção e construção da fortaleza foi atribuída erroneamente aos artilheiros imperiais Villagrán Cabrita e Hermenegildo de Portocarrero por vários autores como Schneider, Paranhos, Nabuco, Ouro Preto e ultimamente, Doratioto. Se bem, é certo que Cabrita e Portocarrero foram instrutores de artilheiros paraguaios em 1851 sucedendo a outra missão anterior de 1847 a 1849, que incluiu Francisco Domingo Caminade e João Soares Pintos, todos tendendo a preparar oficiais paraguaios para uma eventual invasão do ditador argentino Rosas ao Paraguai, Humaitá não foi concebido ou construído por oficiais imperiais brasileiros, como será visto.

A construção da fortaleza teve início só depois das primeiras divergências com o Império do Brasil, então esse mito é “absolutamente falso” nas palavras de Gregorio Benites, que explica de forma sucinta e cronológica que a construção da fortaleza data de 1855, quando a República do Paraguai se viu ameaçada pela expedição punitiva comandada pelo Almirante Pedro Ferreira de Oliveira, uma versão que coincide plenamente com obras sob a guarda do Arquivo Nacional de Assunção e com toda documentação sobre essa defesa, que mostra itens de materiais daquele ano até o início da guerra, durante os quais melhorias ainda foram feitas nas defesas.

Benites recorda que na ocasião do grave incidente de 1855 com o Império, Dom Carlos Antonio López ordenou a evacuação de Paso de Pátria e seu translado a Humaitá, que então era uma simples guarda fluvial. Logo que chegou o Exército paraguaio em seu novo acampamento, o chefe do Estado-Maior, o então Coronel Wenceslao Robles, dispôs o desmonte e limpeza de toda a localidade para estabelecer ali os quartéis.

Em poucos dias, chegou Francisco Solano López em companhia do Coronel Wisner, prosseguindo sem perda de tempo para a demarcação de todas as baterias que foram construídas rapidamente nas beiras do rio, trabalhando nas obras dia e noite, revezando os contingentes das diferentes armas até que estivessem concluídas e prontas, em menos de quinze dias. A verdade é que “o Império obrigou o Paraguai, com a ameaça da sua Esquadra, em 1855, improvisando o Sebastopol paraguaio”.

Além do conflito diplomático com o Império do Brasil, no mesmo período foi registrado outro com os Estados Unidos, desencadeado pelo incidente com o Water Witch (1855), que resultou na morte do marinheiro estadunidense Samuel Chaney, após o bombardeio sofrido por parte do Forte de Itapirú. Anos depois, uma expedição punitiva ao Paraguai foi organizada com a intenção de exigir satisfações do governo paraguaio, ocasião em que se verificaram progressos na fortificação, considerada pela Harper’s Weekly como “a chave do Paraguai”.

As melhorias da fortaleza de Humaitá continuaram por mais de dez anos até o início da guerra, pois, mais tarde, represas foram incorporadas para inundar os campos de muralhas extras, a fim de impedir as manobras dos Exércitos invasores, com medo de um ataque ao lado da terra. Uma linha de fortificações de mais de 2.000 metros foi erguida na margem esquerda do Rio Paraguai, construída de barro compacto, tijolos e troncos de madeira maciça (urundey e quebracho), com grupos de parapeitos e oito baterias separadas de canhões.

As medidas exatas e os cortes de perfil são registradas no levantamento topográfico realizado pelo engenheiro polonês a serviço do Exército argentino Roberto Chodaziewicz, após a ocupação de Humaitá em agosto de 1868. Chodaziewicz descreve o Quadrilátero como um terreno de 3.548 metros quadrados de escaldões e comunicado por dez escritórios telegráficos. Sobre as barragens que Thompson introduzira, ele diz: O Estero Rojas tem uma drenagem na Lagoa Piris e vai de leste a oeste.

No ponto ‘A’, foi construída uma barragem com a qual a água foi elevada um metro acima do nível natural e, em seguida, o dreno foi feito pela vala ‘B’, que tem uma comporta em sua boca. O Estero Tuyutí tem diferentes drenos, no ponto ‘C’ o dreno foi alojado, bem como em alguns outros riachos dentro da montanha. Na inundação de fevereiro deste ano (refere-se a 1868), as obras feitas no cânion do rio em Curupayty desmoronaram.

Com 150 metros de frente e 6 metros de altura, a Bateria Londres era a mais notável das oito. Construída por técnicos ingleses sob a direção de Thompson – razão de seu nome –, consistia numa longa janela de tijolos com paredes de quase dois metros de largura e coberta de arcos compactos de barro. Com uma abertura para 16 canhões, montou dois de 68 libras, dois de 56, três de 32 e um de 8.75 polegadas. O telhado engenhoso foi projetado para saltar ou desviar algumas balas de canhão que caíssem sobre ele em certos ângulos.

As outras sete baterias estavam localizadas principalmente em plataformas altas de barbeta, com telhados de vime e parcialmente reforçadas com paredes de tijolos ou barro. O poder do fogo foi dividido em Artilharia Permanente, que foi afixada na margem do rio, e a Artilharia Perimetral ou de Contorno, que guardava os outros flancos por terra. O perímetro fortificado se completava com mais de oito quilômetros de linhas que foram melhorados na década de 1860 integrados ao sistema de barragens, que oferecia assim uma resistência formidável por todos os flancos.

Também construíram paióis em forma de Tatakuá, com uma grande quantidade de pólvora negra, abrigos para 12 mil soldados, grandes armazéns para alimentos e armas, ferragens, serraria, carvão, hospitais e clínicas também foram construídos. No centro ergue-se a grande Igreja de San Carlos Borromeo. A cúpula da igreja com suas três torres foi o primeiro objeto visível quando os barcos faziam a curva de qualquer direção.

Sob a direção de Thompson, mais baterias foram adicionadas e a linha de trincheiras que cercava a praça se ampliou. Uma corrente que ligava as duas costas começou a ser instalada e pretendia ser um obstáculo intransponível para a Esquadra, a menos que o rio subisse extraordinariamente. Suas ligações foram construídas com madeira timbo. Cada peça tinha seis metros de comprimento e 18 centímetros de largura, unidos por ganchos fabricados com trilhos de trem divididos em dois.

Suas ligações foram construídas com madeira de timboúva. Cada peça tinha seis metros de comprimento e 18 polegadas de largura, unidos por ganchos fabricados com trilhos de trem divididos em dois. A corrente era um quarto maior que a largura do rio, e suas cabeças estavam presas em quatro estacas fortes presas no chão. Embora mantido à tona por uma linha de canoas, pelo seu próprio peso estava quase todo debaixo d’água, os imperiais podiam atacar por um longo tempo com poucas chances de cometer algum dano.

O quartel-general era sede do centro do Poder Militar paraguaio. Durante a guerra, Humaitá tornou-se, de fato, a segunda cidade com a maior aglomeração demográfica depois de Assunção, superando-a até porque abrigava, no início da campanha e em todo o seu polígono fortificado, mais de 30 mil almas; no entanto, Humaitá não foi urbanizada como uma cidade, e seus principais edifícios eram limitados, além da Igreja de San Carlos Borromeo, quartéis e edifícios para fins militares, enquanto a maior parte das tropas acampava em quartéis atrás das linhas de defesa costeira (baterias principais), bem como o lado da terra.

Havia muita água, tanto para as tropas quanto para os cavalos, mas, exceto por pequenas hortas, a provisão de alimentos (vegetais, carne, farinha e mandioca) era feita principalmente de duas maneiras: uma do Norte, por via fluvial vindo da capital, Assunção; e outra a leste, também por via fluvial, seguindo o curso do Tebicuary. No final da campanha, depois de cortar as principais rotas logísticas, uma última linha de comunicação foi mantida através do Chaco, mas foi finalmente abandonada quando as Forças foram transferidas para a costa de Tebicuary, em San Fernando.

O perímetro foi armado com um total aproximado de 200 canhões de calibres diferentes, as baterias costeiras cruzavam fogo com o reduto no lado oposto do rio, enquanto as correntes que cruzavam o rio receberam todo tipo de minas explosivas, tornando arriscada qualquer operação de tentativa de transferência. Devemos também mencionar o telégrafo e seu uso em Humaitá como outro avanço científico sem precedentes para a época e cuja construção e funcionamento ficou a cargo de Robert Fischer.

Arthur Silveira da Motta, futuro Barão de Jaceguay, também manifesta o profundo respeito que a maioria dos marinheiros imperiais sentiam, não só pelo que significou a fortaleza de Humaitá como o ponto topo- -hidrográfico mais fortificado e armado, mas pela sua localização, dizendo que: “O canal navegável corre próximo à margem esquerda. Desta conformação do leito do rio origina-se a incerteza da direção da corrente, causa dos traidores remansos, onde muitas vezes neutraliza-se à ação do leme, na razão direta do comprimento dos navios.

A velocidade da corrente é no canal de 3,5 a 4 m/h, segundo informam os práticos. Para dar mais completa ideia do poder defensivo de Humaitá cumpre acrescentar que as suas baterias dominam, em toda a extensão do alcance máximo dos seus canhões de grosso calibre, os trechos do canal navegável abaixo e acima da curva fortificada, o que expõe os navios a um fogo de enfiada destrutor muito antes e muito depois de transporem a volta. O navio que, depois de penetrar na volta, desgovernasse por força de avaria no leme ou uma máquina motora, correria ainda o risco de ser lançado sobre o recife de rocha existente mais abaixo do recesso onde começa o barranco”.

O próprio Caxias, no entanto, que, antes do abandono da fortaleza pelas Forças paraguaias em julho de 1868, também respeitava a fortaleza mítica, mudou de ideia uma vez que as tropas aliadas ocuparam a praça, como fica claro em uma carta enviada a Paranhos em 10 de setembro de 1868, onde afirmou: o meu amigo está enganado na apreciação que faz do Humaitá pelo lado de Curupaity; pode ficar certo de que a linha negra até aquele ponto era com efeito tudo o que havia de meio fortificado; e nem creia o meu amigo, que o General Argollo tivesse dito o que lhe atribui.

Eu também depois que entrei no Humaitá vi que aquela fortaleza não passava de um grande potreiro fortificado, devendo sua nomeada do mistério que a envolvia. Vi, que pela margem direita ela poderia ter sido com vantagem atacada, e mesmo nela teríamos entrado no dia 16 de julho, se tivéssemos querido perder mais 500 ou 600 homens (sic).

A ocupação da fortaleza abandonada de Humaitá pelas tropas aliadas permitiu a chegada de outros estrangeiros, como no caso Burton, que descreve as baterias de Humaitá criticando a falta de cobertura da barbeta, pois deixaram a artilharia desprotegida, embora afirme também que, na guerra moderna, aqueles construídos em um camarote provaram ser “meros matadouros”, para finalmente alertar que o erro estratégico cometido pelos paraguaios foi o mesmo que o dos confederados na Guerra Civil Americana, isto é, o espalhar-se em longas linhas de defesa em vez de concentrar seu poder de fogo em poucos pontos.

Do ponto de vista da ciência militar e da evolução na forma de guerrear, vale também a pena conhecer a leitura europeia do longo cerco de Humaitá, já que de maneira profética um jornal de Madri chamado “La Guerra del Porvenir” ao tipo de guerras e características dos locais no futuro dizendo que lembra Sebastopol, aquela imensa frente de redutos que parou por muito tempo os franceses e ingleses na Crimeia, e que permitiu à Rússia, espancada em Alma, enfrentar aos aliados e ter fortuna duvidosa por um longo tempo.

Lembre-se de Alexandria e de Turim no início da Guerra da Independência da Itália, que impediu a invasão repentina do Piemonte. Lembre-se do Quadrilátero, sem o qual Veneza teria sido conquistada em cinco dias. Lembrem-se de Richmond, que imobilizou as Forças americanas durante meses e até anos, permitiu que 4 milhões de homens contivessem 30 milhões. Lembra-se de Gaeta, atrás de cujos muros ele resistiu a Garibaldi, e nesses mesmos momentos há um ano Humaitá tem em xeque todas as Forças do Brasil.

Os campos entrincheirados serão o último e supremo recurso dos Exércitos maltratados (…) com a ciência mecânica dos engenheiros e o vapor como força motriz, serão obtidas coletas inéditas; neste, a procissão reserva grandes surpresas para nós. Concebe- -se que todos estes instrumentos mudarão o caminho da artilharia e dos engenheiros e exigirão novas ferramentas, porque as de hoje serão rudes e imperfeitas, como filhos da arte da infância (…) a substituição na guerra dos homens pelas máquinas. Os Exércitos importam pouco; seu material decidirá tudo.

Fonte: Revista Navigator Nº 27
Publicado em:
Por: Drº Eduardo Nakayama

Nota da Redação: O autor do presente artigo, Srº Eduardo Nakayama, é Mestre em Historia pela Universidade de Passo Fundo (UPF). Advogado, formado pela Faculdade de Direito e Ciências Sociais da Universidade Nacional de Assunção com pós-graduação em Direção Estratégica pela Universidade de Belgrano em Buenos Aires. Foi fundador e ex-presidente da Associação Cultural Manduarâ, ex-diretor da Academia Liberal de História e membro das seguintes academias e institutos: Academia Paraguaya de la História (APH), Instituto de Geografia e História Militar do Brasil (IGHMB), Instituto de Investigaciones Históricas y Culturales de Corrientes (IIHCC) e do ICOFORT/UNESCO.

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