Senta a pua! Participação na 2ª Guerra está no DNA da Força Aérea Brasileira

Membros da FAB durante treinamento no Panamá © Foto / Arquivo Luis Gustavo de Barros Gabriel

Não só os pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB), mas também os avestruzes da Força Aérea Brasileira (FAB) contribuíram para a vitória sobre a Alemanha nazista, bombardeando alvos terrestres durante a campanha da Itália.

A história da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial é dominada pelo papel da Força Expedicionária Brasileira do Exército. Muitos desconhecem a contribuição da Força Aérea Brasileira (FAB) nas patrulhas do Atlântico Sul e em missões de bombardeio na Itália.

“A participação da FAB na Segunda Guerra foi o embrião que permitiu que a força crescesse e evoluísse”, explicou o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Rudnei Dias da Cunha.

Por trás do rompimento das relações diplomáticas entre o Brasil e os países do eixo, houve “intensa negociação”, segundo a qual os EUA “se comprometiam a reequipar as Forças Armadas do Brasil, que estavam muito defasadas”, disse Cunha.

Além disso, os EUA se comprometeram a financiar a construção da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) para deslanchar o projeto de industrialização do Brasil, cobiçado por Getúlio Vargas.

Mas o que provocou a entrada definitiva do Brasil na guerra “foram 6 ataques, realizados por um único submarino alemão U-507, ao longo da costa nordeste do Brasil” em agosto de 1942, contou Cunha. “Perdemos 877 pessoas, entre militares e civis.”

Nesse contexto, a FAB foi engajada em missões de patrulha do Atlântico Sul destinadas a afundar submarinos alemães e italianos.

“Avião anfíbio Catalina da FAB afundou um submarino alemão [U-199]. Alguns dos tripulantes alemães foram resgatados pela Marinha americana, e levados prisioneiros para o Rio de Janeiro […]”, relata Cunha.

Luis Gustavo de Barros Gabriel, engenheiro e coordenador do site Sentando a Pua, contou sobre a experiência de seu pai, David Rosal Gabriel, veterano da FAB na guerra.

“Meu pai se tornou soldado da FAB em 1943, quando ele tinha somente 16 anos. Ele era órfão de pai e resolveu entrar na Aeronáutica para garantir uma renda extra para a família”, contou Luis Gabriel.

Treinamento

Para integrar o teatro de guerra, a FAB instituiu em 1943 “uma unidade de treinamento em guerra antissubmarina”, disse Cunha.

O soldado David Gabriel viu no programa de treinamento uma oportunidade e, “em dezembro de 1943, se voluntariou para integrar o grupo de caça e ir para guerra”, contou seu filho.

David Gabriel “estava com 17 anos e fez treinamento nos EUA e no Panamá, junto com o grupo de caça, até embarcar para a Itália em setembro de 1944”, contou Luis Gabriel.

Os treinamentos foram pesados e “o segundo-tenente Dante Isidoro Gastaldone faleceu, por uma pane no oxigênio da aeronave. Ele perdeu os sentidos, o avião mergulhou e ele não conseguiu saltar”, lamentou Cunha.

Nessa época o grupo de caça começa a interagir e ganhar identidade própria. Após o treinamento, o grupo adota o avestruz como sua mascote.

“Os brasileiros tiveram que encarar a comida norte-americana durante o treinamento: feijão doce e arroz com geleia”. Por isso, decidiram adotar o avestruz como símbolo, “uma ave que come de tudo”, contou Cunha.

Missão na Itália

O grupo de caça segue dos EUA para Itália no mesmo navio que um famoso grupo de soldados negros americanos, os chamados Buffalo Soldiers.

“Por causa da segregação nos EUA, negros e brancos não podiam ficar juntos. Como os brasileiros são latinos, os americanos colocaram nosso pessoal junto com os negros no navio”, relata Gabriel.

“Eles chegaram no porto de Napoli, na Itália, no dia 4 de outubro de 1944, o dia que meu pai fez 18 anos”, contou. “Mas eles não conseguem desembarcar, porque o porto tinha sido bombardeado, então seguem para Livorno.”

Acampamento brasileiro

Na chegada à base aérea de Tarquínia, os brasileiros enfrentaram algumas dificuldades para se instalar.

“Os americanos chegaram antes e pegaram os melhores lugares para montar acampamento, então sobrou para os brasileiros um terreno pantanoso, um verdadeiro lamaçal”, conta Gabriel. “O pessoal cavou uma vala em volta do acampamento para drenar a água.”

“Meu pai contava que, quando os militares saíam de licença e iam para a cidade comemorar, voltavam de noite mais pra lá do que pra cá e caíam na vala”, disse Gabriel.

Na Itália, “a FAB realizou principalmente ataques ao solo contra posições alemães e italianas, como comboios terrestres, posições fortificadas, depósitos de munição e trens”, explicou Cunha.

Apesar de não terem lutado contra caças alemães, “mergulhar contra um alvo para lançar nele as suas bombas, desafiando a artilharia antiaérea, exige muita coragem”, notou Cunha.

“Nós perdemos 8 brasileiros nas missões na Itália. Os que foram feitos prisioneiros foram retornados quando a guerra acabou”, contou Cunha.

“No período da ofensiva da primavera, os brasileiros voaram apenas 5% das missões atribuídas à Força Aérea do Exército norte-americano na região, mas foram responsáveis pela destruição de 15% dos veículos, 28% das pontes, 36% dos depósitos de combustíveis e 85% dos depósitos de munição”, disse Cunha.

Os brasileiros se destacavam não só no ar, mas também em terra “pela criatividade e organização” do grupo.

“O meu pai lidava com as peças de reposição das aeronaves. Ao ver a quantidade de caixas de madeira de munição que os americanos jogavam fora, fizeram escaninhos e organizaram todo o galpão”, conta Gabriel. “Os americanos ficavam impressionados.”

Mas foram com os italianos que os brasileiros interagiram melhor: “Existem muitos relatos de que os brasileiros dividiam sua ração com os italianos, principalmente com as crianças”, conta Gabriel.

“Na volta da guerra, veio um navio só com esposas de brasileiros. Mais de dez integrantes do grupo de caça se casaram na Itália”, relatou Gabriel.

Volta pra casa

Apesar das dificuldades relatadas pelos membros do Exército na volta ao Brasil, a Aeronáutica “teve o reconhecimento merecido”, garantiu Cunha.

Gabriel concorda e diz que, para seu pai, a “guerra foi uma experiência de amadurecimento, principalmente por ter visto o sofrimento do povo italiano, que passava fome”.

De volta ao Rio de Janeiro, David Gabriel decide mudar de vida e embarca em um trem para São Paulo.

“O trem enguiça em Volta Redonda. Meu pai e seu colega veterano, que tinham carta de recomendação da Aeronáutica, decidem ir até a CNS procurar um emprego. Eles vão até a siderúrgica, e a primeira pessoa que ele encontra lá foi a minha mãe”, contou Gabriel.

Grupo de Veteranos

Empregado na siderúrgica, que é fruto direto da participação do Brasil na Segunda Guerra, David Gabriel passa a integrar o grupo de veteranos da FAB, um dos mais coesos das Forças Armadas brasileiras.

“Até 2014, toda a primeira sexta-feira do mês eles se reuniam no Clube na Aeronáutica, no Rio de Janeiro, para almoçar juntos. Eles se mantiveram unidos”, conta Gabriel.

“Isso perdurou até a década de 80”, quando os membros cassados foram readmitidos e o brigadeiro Nero Moura voltou a participar das cerimônias da Aeronáutica, disse Gabriel.

Após a morte de Nero Moura, a liderança informal do grupo de veteranos de guerra da FAB foi assumida pelo brigadeiro Rui Moreira Lima.

Apesar da patente, Gabriel lembra que “ele insistia que não tinha mais diferença entre cadete, tenente e capitão. Que todos eram iguais, todos eram veteranos”.





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