SOBRE A PANDEMIA DO NOVO CORONAVÍRUS E OUTROS DESASTRES

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SOBRE A PANDEMIA DO NOVO CORONAVÍRUS E OUTROS DESASTRES

Neste início de ano, o país se depara com algo inusitado que expõe a fragilidade de nossa sociedade em enfrentar um desastre relacionado a infecções virais dessa magnitude.  Da falta de estrutura hospitalar até o desafio de atingir um ponto de equilíbrio entre o isolamento social e a necessidade de fazer a economia girar, passando pela dificuldade da população em manter hábitos de higiene e de prevenção condizentes com a situação.

Por tais motivos, é notório o caráter prioritário que devemos dar às ações de combate a pandemia do novo coronavírus, e, nesse aspecto, o Governo do Estado está totalmente focado nessas ações, e que, por óbvio, custa dinheiro.  Somado às questões de queda de arrecadação, temos também o aumento de recursos destinados à assistência da população menos favorecida e aos novos desempregados, gerando um aumento na procura dos serviços públicos. Educação, saúde, assistência e segurança são áreas que serão mais demandadas e que necessitarão de mais recursos. Outra complicação são as aquisições que não estavam no planejamento orçamentário, deixando o governo extremamente fragilizado em seu caixa.

Entretanto, não podemos deixar de olhar um pouco mais à frente. Olharmos para depois da pandemia ou concomitante a ela. Falo dos eventos climáticos extremos.  Eles não esperarão a pandemia arrefecer para mostrar seu lado negativo, e, para esses, devemos trabalhar fortemente as questões de prevenção.  Importante ressaltarmos que, aqui no Espírito Santo, temos dois momentos distintos: A seca, com predomínio de junho a setembro, e as chuvas, de novembro a março.

Será que o Estado e os municípios terão folego para dar suporte e assistência aos afetados por esses possíveis desastres nessa nova realidade?  Acredito que as ações de combate à pandemia e a queda de arrecadação imporão uma situação ainda mais difícil.

Mas o alerta é que, sendo seca ou enxurrada, o Estado não terá a mesma capacidade de apoiar os municípios, refletindo num menor poder de assistir à população. Os municípios, por sua vez, também estarão fragilizados e em final ou início de novas administrações. A ideia é que reforcem as ações de prevenção e preparação para esses possíveis momentos de infortúnio, contando com a participação efetiva da população.

Trazendo um outro fator complicador e após analisar o Anuário Climático do Brasil 2019 (INMET/INPE/CEMADEN), o Observatório da Seca (ANA) e o infoQUEIMA e os Boletins Meteorológicos da Defesa Civil Estadual podemos intuir que as mudanças climáticas são uma realidade e seus impactos estão aí e tendem a aumentar. Uma importante ferramenta para nos prepararmos de forma condizente é o Fórum Capixaba de Mudanças Climáticas, que possibilita uma construção de políticas públicas realmente efetivas e com resultados práticos.

Pelas dificuldades já mencionadas nessa roda viva é imprescindível que a população assuma o protagonismo de seu bem-estar.  Desde pequenas coisas, como deixar de jogar lixo em encostas, a criar uma percepção de risco mais forte, até questões mais complexas, tais como evitar os adensamentos populacionais em áreas de risco (com famílias numerosas e de baixo poder aquisitivo) e o exercício da cidadania de forma plena e republicana.

O mundo deverá se moldar a uma nova realidade.  Devemos trocar o vigiai e orai, pelo orai e fazei.

André Có Silva é Coronel do Corpo de Bombeiros Militar e Coordenador Estadual de Defesa Civil