Sobrevivencialismo; Como os europeus estão se preparando para o pior.

Por: Yam Wanders.

sobrevivencialismo é uma doutrina   muito comentada desde a ascensão de alguns programas de TV pelo mundo, e a cada episódio de alguma catástrofe natural, de atentados terroristas ou outros tipos de sinistros que colocam em risco a vida de pessoas, grupos ou populações, o tema volta ao centro das atenções entre os simples curiosos, e, acaba inflamando os debates de todos os tipos entre os adeptos, praticantes ou não da doutrina sobrevivêncialista em todas as suas variantes.

O instrutor Bruno Vigier-Lafosse, organizando a “cozinha dee campanha” do acampamento.

Ligada ao mundo militar desde a antiguidade, a doutrina do sobrevivencialismo possuiu vários outros nomes pelo decorrer da historia, e provavelmente os tataravôs e bisavôs de muitos de nós praticaram o sobrevivencialismo sem o saber, apenas pelo fato de ser o modo de vida de muitos até o estabelecimento da revolução industrial e da vida urbana desenvolvida na maioria dos países ocidentais pós século XX.

O instrutor Bruno, em um treinamento de abrigos de emergência em um dos muitos parques florestais da região do Massif Central.
O Instrutor Bruno e eu em uma instrução nas montanhas do Massif Central, aonde muitos praticantes de trekking e paraglider frequentam assiduamente mesmo no inverno e onde ocorrem também muitos casos de pessoas perdidas que sobrevivem graças aos conhecimentos divulgados em cursos como o da Survie et Nature.

Vale lembrar que em muitos lugares do Brasil e até mesmo em países de 1° mundo, ainda existem lugares e regiões tão inóspitos e isolados que o sobrevivencialismo é um modo de vida, é a garantia da refeição de cada dia, e também, do mínimo de conforto e segurança para muitos indivíduos e famílias que não são afortunados para viver mais próximo a civilização desenvolvida, ou, que optam por uma vida isolada por motivos pessoais. Exemplos não faltam para os bons conhecedores de geografia e aos assíduos telespectadores de programação de aventuras da TV à cabo e internet.

As modalidades do Sobrevivencialismo 

A doutrina do sobrevivencialismo tem várias modalidades e diferentes doutrinas pelo mundo afora, tão diversas quanto o perfil dos praticantes da atualidade.

Porém para efeito de comparações da experiência que vivi no final de semana passado aqui na França, descreverei as duas mais conhecidas e praticadas no âmbito do Brasil, e, que a grosso modo foi assimilada de doutrinas militares dos USA advindas desde a 2a Guerra Mundial e Guerra do Vietnã. São estas respectivamente; a sobrevivência militar em ambiente de combate, e, a sobrevivência de aviação civil, ambas voltadas para o cenário da selva, pantanal, cerrado e caatinga do Brasil, que são considerados nossos biomas mais extremos para aqueles que não tem experiência de vida mais rustica.

As poucas diferenças entre ambas são no básico; 

Para a sobrevivência militar; Na permanência em combate é aplicada a doutrina de discrição total, de esforço da busca pela “invisibilidade relativa” frente ao inimigo nas atividades,  para  deslocamento tático e/ou permanência em combate. Tudo isso sempre com o planejamento de que em algum momento a tropa ou grupos dessa será ressuprimentada de alguma maneira pela estrutura operacional da missão em curso.

Para a sobrevivência civil; o foco é a manutenção básica da vida e de um  mínimo de conforto até o momento do resgate, que, sempre se espera não ser superior a sete dias de permanência em campo, a partir da queda de uma aeronave ou do sinistro de uma embarcação, com inicio das emissões de emergência de rádio por fonia, sistemas de localização por satélite e/ou outros aplicados; combinados com a exposição do local do grupo de sobreviventes para facilitar a localização e visualização por equipes de busca e salvamento.

Um dos muitos procedimentos de purificação de àgua, que também serve para o pré-aquecimento dos sacos de dormir no frio ùmido da florestas de Rhone-Alpes.

 

 

Definição de Resiliência:

 – substantivo feminino

1. FÍSICA : propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica.

2. FIGURADO (SENTIDO): capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças.

A resiliência é a capacidade de o indivíduo lidar com problemas, adaptar-se a mudanças, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas – choque, estresse, algum tipo de evento traumático, etc… – sem entrar em surto psicológico, emocional ou físico, por encontrar soluções estratégicas para enfrentar e superar as adversidades. Nas organizações, a resiliência se trata de uma tomada de decisão quando alguém se depara com um contexto entre a tensão do ambiente e a vontade de vencer. Essas decisões propiciam forças estratégicas na pessoa para enfrentar a adversidade.

“Manter a imunidade mental é a base para criar resiliência emocional. O individuo condiciona a mente a tolerar os pensamentos assustadores e consegue esquivar-se do sofrimento ao entender que a dor fará, inevitavelmente, parte da trajetória de vida”.

Definição psicológica de Monique Rossini (6 de abril de 2018). Extraído da obra ; «Saiba como manter a imunidade mental e criar resiliência emocional». 24News Brasil.

 

No Brasil existem vários pesquisadores e divulgadores do sobrevivencialismo, mas poucos dão o devido destaque à doutrina da  “Resiliência” em sobrevivência. 

Não posso deixar de citar o mais sério e famoso sobrevivencialista brasileiro que é o “Batata” do canal “Guia do Sobrevivente”, que junto com sua simpática esposa e filhos apresenta conteúdos de qualidade ao vivo todos os sábados pelo Youtube, ensinando e discutindo temas atuais que podem influenciar de alguma maneira a vida das pessoas, e, que serve como um “curso online” sobre resiliência no sobrevivencialismo, entre muitos outros temas de grande utilidade geral. Enquanto aproximadamente 80% dos “sobrevivencialistas de internet” se preocupam em incorporar um “mixto de Rambo & Bear Grylls“, o canal Guia do Sobrevivente segue a receita “Old School” do também respeitado sobrevivencialista brasileiro Giulianno Toniollo, um dos pioneiros do da divulgação do sobrevivencialismo sério no Brasil.

Com o cair da noite e com todas as tarefas jà realizadas é hora de descansar e secar as roupas ao redor do fogo na cozinha de campanha do acampamento da “bug-out-location”.

 

sobrevivêncialismo de “resiliência” na Europa. 

O cenário atual da França

Em toda a Europa ocidental o sobrevivencialismo em todas as suas modalidade possíveis e/ou imagináveis é uma pratica que tem seu numero de adeptos e praticantes aumentando todos os anos. Os motivos são os mais variados, que vão desde a nostalgia às antigas tradições de famílias dos pequenos vilarejos isolados até mesmo aos que acreditam que sérias convulsões politicas e sociais podem acontecer a qualquer momento, e sem aviso prévio dos meios de comunicação de massa, e esses são a maioria.

A localização bem estudada da “bug-out-location” permite até mesmo esconder um grande nùmero de veìculos bem longe do campo de visão das estradas movimentadas da região. A estrutura do local é discreta e bem reforçada.

Vale lembrar que dada as devidas proporções de população e sua distribuição demográfica, países como a França são obviamente confrontados com sérios impactos psicológicos junto à população civil quando do acontecimento de catástrofes naturais e outros tipos de sinistros. E fora isso, existe um infeliz aumento da criminalidade, causado pela crise do aumento descontrolado da imigração ilegal de países africanos e do oriente médio, o que tem também colaborado para o crescimento da atuação do terrorismo islâmico em sua variante da guerra assimétrica em baixa intensidade, que usa  essa criminalidade em todo o seu espectro como arma de terror na Europa ocidental. 

Hoje, dada as devidas “proporções de população” e seu modo de vida, não seria exagero afirmar que algumas regiões da França tem índices de violência e/ou criminalidade semelhantes ao de algumas grandes cidades da América Latina; o que era algo inimaginável quando da promessa de intensificação da prosperidade quando da implantação do Euro (moeda) em 2001/2002.  

Quando da necessidade de abrigos de emergência, aprendemos a usar de tudo que temos disponivel e principalmente a escolher bem o local.

 

 

A grande vantagem da França e de uma parte da sua população é que o território extenso ( o maior da Europa ocidental, com 550 mil Km2 de área) permitiu a preservação de enormes áreas florestais bem distribuídas pelo país. Porém essas mesmas áreas de reservas florestais são territórios que possuem dificuldades em todos os sentidos; que não permitem uma vida tão segura, confortável e facilitada como nos grandes centros urbanos ou pequenas cidades bem desenvolvidas. Porém o que para uns é um fator complicante de vida, para outros é o cenário ideal para a “sobrevivência de resiliência”.

Na imagem, um dos muitos cursos de salvamento em avalanches, que sempre foi muito procurado também por não praticantes de esqui e montanhismo, mas também por sobrevivencialistas que frequentam as montanhas e nelas possuem suas “bug-out-locations”. O treinamento ilustrado foi ministrado pela ANENA (http://www.anena-formation.com).

 

Apesar desse aspecto de grandes áreas naturais bem preservadas, a industrialização da França apresenta diversos fatores de risco, tais como:

– 19 centrais nucleares com 58 reatores em funcionamento, todos explorados pela estatal EDF (Eletricidade da França). 

– 6 grande refinarias de petróleo, e;

– 6 usinas petroquímicas, entre outras plantas industriais de risco, todas localizadas próximas a grandes centros urbanos!

 

 

Os Organizadores e instrutores

O treinamento foi organizado em seu todo pela associação “Survie et Nature“(pertencente ao instrutor Bruno VigierLafosse) e apoiado pelo grupo ” Loups de Guerre Simulation Militaire” que cedeu o grande terreno florestal.

Durante a instrução de sobreviência, são ministrados muitos conhecimentos dos procedimentos de “SERE” (Survival, escape, resistance and evasion) do qual o instrutor Bruno Vigier-Lafosse é especializado.

Os dois grupos são parceiros e organizam diversas atividades dentro do sobrevivencialismo e do “MilSim“, internacionalmente conhecida como Military Simulation, uma atividade que tem diversas modalidades que vão desde o Airsoft até a reencenação de situações históricas militares (Reenactors). 

 

Na Europa e principalmente nos Estados Unidos o MilSim é levado muito a sério e é considerado um evento de civismo e motivador do patriotismo e incentivador das carreiras militares aos jovens.

O uso de armas de caça é amplamente treinado, pois é um dos métodos que pode realmente garantir sua alimentação nas florestas da região, jà que a alimentação vegetal é escassa no inverno. Na foto, o instrutor Pascal do grupo “Loups de Guerre”.

Os instrutores são todos militares da reserva, sendo; um ex- Fuzileiro Commando paraquedista, um ex- instrutor de infantaria paraquedista e um ex- Gendarme Bruno VigierLafosse, (policial militar da reserva), todos com ampla experiência militar em atividades internacionais em suas áreas. 

Inclusive, o instrutor Bruno VigierLafosse foi participante convidado de um dos melhores reality show de sobrevivência da TV francesa dos últimos tempos, a série “Wild“*, que exercitou situações de sobreviência na Africa e na América do Sul, com cenários aonde sobrevivencialistas experientes ajudavam participantes inexperientes em uma competição de caráter eliminatório, sempre em condições a beira do extremo do esforço sobrevivêncialista em deslocamento por terrenos diversos.

O Instrutor “Gegé”, um Commando Paraquedista, que prefere manter a discrição, sua grande modéstia é comparavel à boa vontade na instrução e na motivação dos alunos.

A despeito de minhas insistências, todos os instrutores  demonstraram uma grande modéstia em revelar totalmente seus currículos e experiências militares, mas bem sei  que todos são profissionais do mais alto padrão e gozam de excelente reputação no meio do sobrevivencialismo e milsim europeu! 

O perfil dos participantes

Os participantes possuem perfil pessoais bem heterogêneos entre si, que basicamente eram; empresários, professores, esportistas profissionais, funcionários públicos, comerciários, entre outros. 

Nesse grupo de 11 pessoas, somente 3 tinham experiência militar e dois eram praticantes assíduos do sobrevivêncialismo em quase todas as suas modalidades, podendo ser considerados como “praticantes experientes” apesar de jovens. As duas únicas mulheres que participaram, ambas podem ser consideradas experientes no sobrevivêncialismo; autodidatas com uma boa carga de conhecimento e motivação, mesmo não atuando em profissões ligadas à atividades extremas. 

Os participantes, origens diferentes mas todos com a mesma motivação de treinar e aprender para se preparar.

No tocante a motivação para participar do treinamento, todos eram unanimes em afirmar que tinham consciência que em algum momento futuro poderão precisar de pelo menos um ou mais dos conhecimentos que foram exercitados no campo. Outro fator que foi unanime é a busca de superação pessoal, de possuir a certeza que são capazes de suportar condições que exijam esforços e desconfortos, bem como o aprendizado com instrutores experientes e a troca de informações e experiências com os demais participantes. 

O cenário exercitado 

No treinamento foi exercitado o seguinte cenário hipotético:

– Após o começo de uma situação de crise e convulsão social em uma grande cidade da França, ocorrem violentos protestos e saques generalizados causados por “refugiados” sub-saarianos; é declarada a  greve das forças policiais, que, somados à algum tipo de catástrofe natural e/ou desastre industrial, acaba por forçar o abandono das residências de um grupo de amigos (no caso, os participantes do treinamento, que se conheceram no dia). 

– Esse “abandono urbano” é uma ação planejada, coordenada pelos instrutores e ocorre sempre sob constante comunicação entre os membros do grupo, até um ponto de encontro pré-determinado na saída da cidade, aonde após a reunião de todos, ocorre o deslocamento para o campo (bug-out location, fazenda, sitio ou campo de permanência) que é um local secreto, conhecido somente pelos instrutores do grupo.

Treinamento de 1os Socorros & APH, indispensàvel em todos as atividades e sempre a 1a atividade do treinamento.

 

– Durante o deslocamento ocorrem “baixas fatais”(simuladas) e feridos entre os membros, devido à ataques de grupos hostis que visam a pilhagem e outras formas de violência. Nesse período são exercitados diversas ações de primeiros socorros, do nível mais básico até ao APH avançado tático.

 

Equipamentos fortes e de qualidade; carregue o que puder, mas o que puder carregar saiba usar, e, melhor ter e não precisar do que precisar e não ter; essa é uma das regras do treinamento.

– Após a chegada ao local (bug-out location) são exercitados diversas outras táticas, que vão desde o reconhecimento de segurança do terreno, passando pelo tratamento dos feridos e  finalizando com o estabelecimento do grupo em uma situação que visará a autonomia e segurança do grupo e de suas instalações. 

Nem sempre poderemos ter uma barraca à disposição, e, nem todas as barracas são tão boas quanto parecem, portanto, saiba fazer seu abrigo bem reforçado!

– Na situação do estabelecimento da segurança do terreno em seu perímetro de segurança, são exercitadas as técnicas de resiliência mais avançadas que vão desde a construção e reforço de abrigos bem camuflados, coleta de água e víveres na natureza, e, o consumo controlado dos recursos que foram estocados no local e do que foi levado no momento do abandono das residencias nas cidades.

Em um acampamento de resiliência o barro presente por todo lado fornece matéria prima para o forno que ajudarà a cozinhar até debaixo da chuva mais forte!

 

Nesse cenário de  “sobrevivência de resiliência”, o principal fator que é pesquisado e exercitado é a autonomia, que visa a preparação em vários aspectos para a independência quase que total de todos os meios e facilidades em uso pela vida moderna, incluindo quando necessário, muitas doutrinas militares para garantir a proteção dessa estrutura de resiliência, e consequentemente, a sobrevivência do grupo ou de elementos isolados na situação,  ou, em evasão para um local específico em busca de segurança.

Para melhorar as condições do acampamento, todo material de fortuna deve e serà aproveitado para garantir a estrutura segura e forte.

Existem uma ampla série de outros aspectos e ações que são tratados e exercitados em campo por todos os participantes, porém em comum acordo com os organizadores do treinamento,  me reservo a não tornar publico esses detalhes, para não fomentar polêmicas desnecessárias com eventuais relativistas morais de plantão. São conhecimentos e treinamentos avançados que somente os participantes dos cursos e associados do grupo podem ter acesso.

A localização, inspeção e proteção das fontes de àgua é um dos principais topicos de ensino na doutrina.

 

As conclusões

Em tudo o que é exposto aos participantes e estudado nas atividades, não faltam exemplificações de situações reais que os instrutores vivenciaram em suas experiências na vida militar operacional; a carga de troca de idéias e experiencias entre os participantes é também um fator  que contribui para a formação de laços de confiança que evoluem para amizades entre pessoas com as mesmas afinidades no campo da sobreviência de resiliência.

Acampamento organizad é acampamento aonde se pode descansar mais cedo perto do fogo, que sempre serà bem protegido não somente da chuva como da possivel visão de olhos indesejados de forasteiros do campo.

 

Nessa troca de informações e execução de exercícios práticos, muitos mitos e fantasias são eliminados das imaginações dos debutantes do sobrevivencialismo, e com isso se promove uma cultura de segurança e responsabilidade para a doutrina em geral. 

Treinar nunca é demais, e, melhor treinar e não precisar, do que precisar e não estar treinado…

Galeria de imagens:

Link “Survie et nature” do instrutor Bruno Vigier-Lafosse:

https://www.facebook.com/bruno42155/

Link do grupo “Loups de Guerre”: 

https://www.facebook.com/groups/363380240723339/about/

Link do site “Guia do Sobrevivente” (Batata):

http://www.guiadosobrevivente.com.br/

* A série “Wild” originalmente um programa da BBC inglesa, foi adaptada e exibida pelo canal M6 da França, de março à abril de 2018, com cinco episódios em locais e biomas diferentes, sendo considerada uma das mais completas e realistas da TV Europeia. 

Link dos episódios resumidos: 

https://www.6play.fr/wild-la-course-de-survie-p_9071

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