“Soldado Desconhecido” da Força Expedicionária Brasileira tem DNA mapeado na Itália

Autor: Helton Costa

O “Soldado Desconhecido”, último e único brasileiro ainda enterrado em Pistóia, teve o DNA mapeado.

É o que mostra o artigo “Análise de DNA dos restos mortais do último soldado brasileiro desconhecido enterrado em Pistóia (Itália)” [em tradução livre], do pesquisador italiano Vincenzo Agostini, da Universita Degli Studi Del Piemonte Orientale “Amadeo Avogadro,”de Alessandria, Itália.

O trabalho científico foi publicado este ano na revista Pesquisa em Ciências Forenses (Forensic Sciences Research).

Conforme Agostini, “em dezembro de 2012, a Embaixada do Brasil na Itália solicitou a realização de análises genéticas forenses para fins de identificação dos restos mortais deste último soldado brasileiro desconhecido. Após quase 70 anos, foi obtido um perfil de repetições curtas em tandem (STR) completo, útil para qualquer busca de parentes”.

A exumação foi feita em 6 de dezembro de 2012. Dentro do caixão, estavam: “crânio + 4 dentes (21, 22, 23, 27); a mandíbula não estava presente; n. 15 vértebras + complexo sacral; n. 23 costelas; n. 2 escápulas; n. 2 clavículas; n. 2 úmeros; n. 2 raios; n. 2 ulnae; n. 1 acetábulo; n. 2 fêmures; n. 2 tíbias; n. 2 peronei; n. 30 ossos curtos e outros pequenos fragmentos ósseos.

“Dentro do caixão havia também uma garrafa de vidro contendo uma folha de papel, fragmentos de uma manta e algum material entomológico (provavelmente pupária) dentro do acetábulo”, explicou o pesquisador.

Agostini pegou três dentes para a análise de DNA. “Os componentes do solo e os potenciais agentes contaminantes presentes na superfície dos dentes foram removidos fisicamente com lixa estéril e, posteriormente, com luz ultravioleta (UV) e lavagem com água e etanol. Em seguida, os dentes foram deixados para secar durante a noite. No dia seguinte, eles foram novamente expostos à luz ultravioleta por 30 min de cada lado”.

Pronto para identificação

Primeira e segunda réplicas (respectivamente, A e B) realizadas no DNA extraído dos dentes do soldado.

“Após as operações de amplificação e sequenciamento por PCR, foi possível digitar um perfil genético claro e compreensível, atribuível a um indivíduo do sexo masculino e útil para as etapas de identificação posteriores. (…) Os dados genéticos pertencem com certeza aos restos do soldado”, ressaltam trechos do artigo.

“Apesar do mau estado de conservação, após 70 anos, foi possível obter um perfil de DNA completo, claro e repetível, pertencente a um indivíduo do sexo masculino. Tal perfil certificado foi enviado à Embaixada do Brasil na Itália, a fim de submetê-lo ao seu banco de dados nacional de DNA para busca de parentes em potencial e para ser capaz de encontrar pelo menos um descendente e dar um nome ao último Soldado Desconhecido Brasileiro enterrado na Itália. Ainda hoje, porém, não foi possível encontrar parentes do soldado e dar-lhe um nome”, esclarece outra parte do mesmo estudo (leia aqui).

O que dizem as autoridades?

O Exército foi procurado para falar do assunto por meio de sua Divisão de Relações Públicas e da a assessoria de imprensa geral em Brasília, que por sua vez informou que quem responderia sobre o tema, seria a Seção de Comunicação Social do Departamento de Educação e Cultura do Exército.

Até o fechamento deste texto não houve resposta oficial. Assim que chegar, será inserida e/ou atualizada. A Embaixada Brasileira na Itália, que foi quem solicitou o exame em 2012, também foi acionada e não havia se pronunciado até o término desta reportagem.

Quem seria o soldado?

Em contato por telefone com departamento do Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no Rio de Janeiro, a informação foi de que há 467 soldados enterrados no mausoléu, e que destes, somente um não foi identificado.

Em 1967 eram 16 soldados sem identificação e, conforme constatado pela redação em visita ao espaço, continuavam sendo 16 até o ano passado.

Quanto ao morto da Itália, há bibliografias que apontam ser Fredolino Chimango, Cabo da 7ª Cia, do III Batalhão do 11° Regimento de Infantaria, dado como desaparecido em 16 de abril de 1945, em Montese/Modena.

Fredolino era um dos 11 filhos de Edmundo Chimango e Gabriela Francisca da Silva, todos de Passo Fundo/RS. O jovem de 22 anos desapareceu em combate quando a Cia dele mantinha posições, perto de Cota 831, próximo de Montese, quando o 3° Batalhão estava em posse de Serreto e Paravento.

Foi no segundo dia de combate, quando o batalhão dele “extenuado e com muitas baixas (148), foi acolhido pelo 3º Batalhão do 6° Regimento de Infantaria, que se instalara pouco à retaguarda das posições atingidas por aquele Batalhão, que foi se reunir na região de Campo Del Sole”, explica o comandante do Regimento, Coronel Delmiro de Andrade, no livro “O 11º Regimento de Infantaria na II Guerra Mundial” (1950).

As baixas aumentaram para 183 durante a madrugada de 15 para 16 de abril de 1945, fazendo um clarão na Cia e Campo del Sole que era a base de partida do ataque, foi também o local de reunião dos sobreviventes. Fredolino não voltou com os poucos que tinham escapado vivos e sem ferimentos.

Antes de morrer, Chimango foi visto ajudando na evacuação de outros colegas feridos, exercendo uma função que não era a dele, atuando como padioleiro. Quem o viu todo ensangüentado, ajudando colegas feridos, foi o 3º Sargento Ary Roberto de Abreu, que deu tal declaração no livro “Vozes de guerra”, de Sírio Sebastião Fröhlich (2015).

Na parte de combate do Coronel Adhemar Rivemar de Almeida, página 106, de 1950, que é uma transcrição do documento original, feito à mão durante a guerra, ele registrou sobre Chimango:

“Destaco entre eles o cabo Fredolino Chimango, falecido, que com sua peça de metralhadora conseguiu heroicamente atingir e neutralizar uma casamata alemã que ameaçava seriamente o flanco esquerdo da 6ª companhia.

Apesar da reação do inimigo, o cabo Chimango só deixou de atirar quando sua arma foi atingida em cheio por uma granada de artilharia que lhe levou a vida”. Depois disso, Chimango não foi mais encontrado e recebeu uma medalha de bravura por ato de bravura coletivo, de 2a Classe, simbolicamente concedida no pós-morte.

Pressentimento de mãe, destino ou acaso, em 10 de junho de 1944, o pai de Fredolino, Edmundo, tinha escrito ao Ministério de Guerra, pedindo a exclusão do filho da FEB (já estava treinando para a guerra no Rio de Janeiro), porque a mãe dele estava “um pouco atacada das faculdades mentais por saber que o filho faz parte de uma unidade expedicionária”. A resposta foi taxativa: “Indeferido. O cabo em questão faz parte de uma unidade expedicionária”. Saiu no jornal “Diário de Notícias”.

Um corpo, uma suspeita

Porém, não faltam registros que liguem a identidade do corpo encontrado em 1967, na cidade de Montese, ao Cabo Chimango.

Estudiosa do assunto, a pesquisadora Adriane Piovezan, no livro “Morrer na guerra: a sociedade diante da morte em combate” (2017), lembrou que já havia homenagens para Chimango na década de 60.

Citando as lembranças do chefe do Estado Maior da FEB, Floriano de Lima Brayner, que dizia que outros dois soldados desaparecidos já tinham sido identificados na região (Rubens Galvão e Júlio Nicolau), Adriane transcreveu o seguinte trecho do livro “Luzes sobre Memórias” (1973, p.111): “o terceiro extraviado, publicado em Boletim da Unidade de 16 de abril de 1945, chamava-se Fredolino Chimango, natural de Passo Fundo, Rio Grande do Sul”.

A autora também observou que Lima Brayner registrou na mesma obra, página 114, que terra do primeiro túmulo de Chimango, foi levada para a sede do 11° Regimento de Infantaria e entregue ao comando da unidade militar, em cerimônia de formatura.

Claramente, segundo Lima Brayner, era Fredolino Chimango o morto de Montese e ele tinha esperança de que um dia os restos mortais voltassem ao Brasil. O conteúdo do livro não é muito diferente do que o próprio Lima Brayner publicou em artigo de opinião em 16 de abril de 1971.


Pais queriam que o filho voltasse para casa

Já Marechal, ele escreveu que havia pesquisado arquivos no Brasil e na Itália, com o apoio do presidente Artur da Costa e Silva (em 1967) e que não havia dúvidas quanto à identidade do morto. Saiu no jornal Diário da Manhã. Nas linhas que escreveu, havia equívocos quanto à Cia de Chimango, porém, ele enfatizou que não era outra pessoa que não o combatente gaúcho.

Como o corpo foi achado?

Em notícia de 2010, assinada por Mateus Parreiras, para a Folha de São Paulo, o jornalista escreveu que um italiano procurou militares brasileiros para contar o ocorrido: “O italiano disse aos militares que, durante uma batalha na cidade de Montese, encontrou um soldado brasileiro morto na mata.

Como passava por dificuldades por causa da guerra, roubou-lhe as botas e o relógio e depois o enterrou com a ajuda do pai, em meio a escombros, naquela cidade. A ossada encontrada sob um monte de entulho tinha vestígios de fardamento brasileiro, mas não estava com as plaquetas de identificação dos soldados e nem portava documentos”. Veja a notícia aqui.

Quem mais afirma ser o corpo de Chimango?

José Dequech, 2º sargento da Cia de Obuses do 11° Regimento de Infantaria, no livro que escreveu em 1985 (Nós estivemos lá), afirmou que de quatro soldados do 11º Regimento de Infantaria desaparecidos em Montese, apenas um não havia sido identificado: Fredolino Chimango.

“Ao tomar conhecimento desse fato, o soldado Waldomiro Antunes de Oliveira, que também viveu o episódio da 7a companhia e hoje reside em Santo Ângelo/RS, diz que: dias antes do ataque, quando eles ainda estavam em Gaggio Montano, o cabo Chimango deixara uma carta que não chegou a ser remetida aos seus familiares em Passo Fundo/RS e que no dia em que o seu amigo tombou, ele esteve no local, ajudou a reunir as partes despedaçada do corpo e não encontrou a placa de identificação. Os restos mortais do cabo Chimango foram transladados para o Monumento Votivo Militar Brasileiro, em Pistóia, onde foi sepultado com as merecidas honras fúnebres, em uma urna gentilmente cedida pelo governo italiano. Já se passaram todos esses anos e ninguém ainda se empenhou em trazê-lo para o Brasil”, escreveu na página 102.

O 3º sargento da Bateria de Comando da Artilharia Divisionária da FEB, Waldir Merçon, no livro “A minha guerra” (1985), página 107, também é categórico em dizer se tratar de Fredolino Chimango o soldado de Montese, enterrado como soldado desconhecido em Pistóia.

No jornal da Associação Brasileira de Imprensa, número 246 de 1995, há menção de que o soldado seria Chimango.

Familiares ainda estão no RS

Três sobrinhas de Fredolino Chimango foram localizadas no Rio Grande do Sul. Ambas preservam o mesmo sobrenome do tio e ficaram animadas com o mapeamento de DNA na Itália. Gabrielli disse que leria o artigo do pesquisador italiano, Zilda, explicou que a família é bastante numerosa em Passo Fundo, o que viabilizaria uma comparação de DNA e Adriana tem o contato de mais parentes.

As três afirmaram também que não têm informação sobre alguém da família ter sido procurado por autoridades do governo para cadastro em banco genético ou algo do tipo. Há nomes de ruas, avenidas, escolas e até estádio (Passo Fundo/RS), como lembrança de Fredolino Chimango.

Se os restos mortais na Itália não forem de Chimango, poderão ser outro dos soldados tidos como desaparecidos em Montese.



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