Tensões No Cáucaso: Armênia E Azerbaijão

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Baku News

A região de Nagorno-Karabakh se localiza na porção sul do grande e turbulento Cáucaso, trata-se de um enclave cercado pela Armênia e possui sua gênese de conflito maior após a Revolução Russa de 1917 mediante imposições de Stalin que estabeleceu alguns limites de anexação desproporcionais, tornando todo o enclave minoritário dentro do Azerbaijão.

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Soldados do Exército do Azerbaijão durante a Guerra de Karabakh. virtualkarabakh.az

Grande parte da população de Nagorno-Karabakh é de origem armênia, e apesar da região ter se desenvolvido durante a União Soviética, o sentimento nacional dos armênios foi despertado, mas contido pela República do Azerbaijão e pelo governo central soviético.

Entretanto, logo após o colapso da Era Soviética em 26 de dezembro de 1991 e a Armênia e o Azerbaijão conquistarem suas independências, a questão de Nagorno se escalou, e armênios e azerbaijanos foram à guerra.

De acordo com relatos históricos, no caminhar da década de 1990, as forças armênias de Karabakh, apoiadas obviamente pela Armênia, ganharam o controle de grande parte do sudoeste do Azerbaijão, incluindo Nagorno-Karabakh e o território que conectava o enclave com a Armênia, cerca de 14% do território do Azerbaijão estava dominado pelos armênios.

Seguiu-se uma série de negociações intermediada pela Rússia e por um comitê informalmente conhecido como “Grupo de Minsk”, porém não houve resolução, seguiu-se apenas uma espécie de acordo de cessar-fogo brando em 12 de maio de 1994 sem muitas punições aos infratores, fato que condicionou em livre conflito velado em toda a região que deixou aproximadamente 24 mil mortos, entre eles civis e militares.

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Presidente armênio Serzh Sargsyan e o Presidente azerbaijano Ilham Aliyev em 2008. kremlin.ru

Para reforçar o cessar-fogo de 1994, em novembro de 2008, o Presidente armênio Serzh Sargsyan e o Presidente azerbaijano Ilham Aliyev, assinaram um acordo histórico comprometendo-se a intensificar os esforços para uma resolução do conflito.

Anos se passaram e o acordo seguiu o caminho com as forças de ambos os lados respeitando-se mutuamente, sem grandes escaladas, até que em julho deste ano, militares armênios e azerbaijanos quebraram o cessar-fogo oficial e deixaram dezenas de mortos, entre eles civis, e forçaram êxodos consistentes de moradores da fronteira.

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Região Nagorno-Karabakh. amp.rfi.fr

Apesar de Nagorno-Karabakh ficar dentro dos limites do território azerbaijano e ser reconhecida internacionalmente como parte do Azerbaijão, a região é controlada por uma maioria étnica armênia.

A escalada em julho de 2020 soou como um alerta à comunidade internacional e aos próprios beligerantes. Segundo a organização International Crisis Group (ICG), os moradores de ambos os lados da fronteira ladeada por trincheiras, vivem há muito tempo com medo de confrontos e minas terrestres.

Três décadas após a guerra de 1992 a 1994 pela região separatista de Nagorno-Karabakh, as crianças vão para escolas atrás de paredes de cimento cada vez mais grossas, os agricultores evitam campos férteis, mas crivados de minas, e os jovens procuram seu futuro em outro lugar.

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Militares em Nagorno. Google Imagem

O desfecho do meio do ano não despertou interesse do mundo, não houve novos acordos e tão pouco relatos consistentes nas principais mídias pelo mundo. As consequências surgiram nesse domingo, 27 de setembro, com as forças militares da Armênia e do Azerbaijão terem se atacado mutuamente na região do enclave.

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Blindados sob ataque no Cáucaso, 27 de setembro.

Diversas imagens foram amplamente divulgadas pelos principais correspondentes de ambos os lados, que mostram um grande ataque que destruiu dezenas de blindados da forças militares apoiadas pelo Azerbaijão.

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Explosão em Stepanakert, decorrente de ataque do Azerbaijão.

O ministério da defesa da Armênia havia confirmado o feito, e sublinhou que seu exército destruiu helicópteros, drones azerbaijanos e 12 sistemas de defesa aéreas em retaliação a um ataque levado a cabo pelo Azerbaijão horas antes contra alvos civis, incluindo ofensivas contra a capital autônoma de Stepanakert, da República de Artsaque (antes conhecida como República de Nagorno-Karabakh).

Apesar dos relatos consistentes dos armênios, os azerbaijanos negaram as declarações, e afinaram as contradições ao dizer que o exército armênio lançou ataques “deliberados” contra posições civis ao longo da fronteira de Nagorno-Karabakh, especificamente ao longo da “Linha de Contato”, uma zona impressionante de minas terrestres que separa as duas forças militares, o que resultou na morte de algumas pessoas e na destruição de infraestruturas locais.

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Linha de Controle em Nagorno-Karabakh, há diversas minas terrestres plantadas. Sabe-se que a retirada dos dispositivos desequilibraria toda a região do beligerante.

Segundo a ICG, as minas terrestres e munições não detonadas são talvez as preocupações mais perniciosas e complicadas dos residentes da fronteira. Em algumas aldeias, as minas transformaram mais de 500 a 1.000 hectares em zonas proibidas.

Não há dados confiáveis sobre o número de minas ou munições não detonadas nas aldeias de fronteira, mas a região está entre as mais “contaminadas” no Azerbaijão e na Armênia. A desminagem há muito está paralisada por preocupações mútuas de que isso pode alterar o equilíbrio nas linhas de frente e enfraquecer a dissuasão.

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Após declaração de Lei Marcial, armênios se reúnem em seus setores militares. Melik Baghdasaryan/TT

Após os consistentes ataques com mortes de ambos os lados, o governo armênio declarou a lei marcial e a mobilização militar total em todo o país e nas extremas regiões do enclave dominadas pelos grupos étnicos, solicitando que o público masculino se apresente imediatamente nas suas comissões militares territoriais, e denunciou que o Azerbaijão esteja supostamente utilizando várias variantes do míssil de curto alcance de 300 mm.

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As posições no beligerante.

O Azerbaijão defende que a solução para o conflito envolve necessariamente a libertação dos territórios ocupados pelos armênios, uma exigência que tem sido apoiada por várias resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas, já a Armênia apoia a independência total de Nagorno-Karabakh como uma República autônoma.

Tiroteios através das trincheiras da região são frequentes, mas não extrapolam esses limites, entretanto a violência de julho evidenciou um alerta ignorado, e agora coloca em risco cerca de 150.000 civis de Nagorno-Karabakh após os ataques de artilharias de ambos os lados.

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Asatur Yesayants

Tanto Yerevan, sede do governo armênio, quanto Baku, sede azerbaijana, devem manter os canais abertos para encontrar maneiras mutuamente benéficas de cooperação ao longo dos 787 km de fronteira entre as duas nações.

Por se situar na faixa transcaucásia, entre Armênia, Geórgia e Azerbaijão, as tensões em Nagorno-Karabakh são crescentes, e qualquer desfecho, seja o menor grau de violência possível, resultará em crises acentuadas.

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