Um espião da Coreia Do Norte na URSS

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Muitos presumem que a Coreia do Norte foi aliada da União Soviética durante a Guerra Fria. Mas, na verdade, as relações nunca foram fáceis entre os dois, principalmente depois do final dos anos 1950. Havia uma grande desconfiança mútua por trás do fino verniz da retórica amizade.

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Kim Il Sung e o comunista da Alemanha oriental Erich Honecker

Portanto, não é surpreendente que os agentes da inteligência norte-coreana estivessem notavelmente ativos na União Soviética desde o início dos anos 1960, caçando segredos tecnológicos e novos projetos de armas que não podiam obter legalmente.

De acordo com o artigo de Andrei Lankov ao NK News, apenas alguns relances das guerras de espionagem do período surgiram até o momento, em grande parte porque todos os arquivos relevantes em ambos os países permaneceram confidenciais.

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Mas em 2019, o jornalista ucraniano Edward Andryushchenko investigou um curioso caso de espionagem que aconteceu em Kiev na década de 1970, aproveitando o desinteresse da Ucrânia em manter segredos da KGB.

Suas descobertas, que foram quase inteiramente descobertas na mídia internacional, iluminam a luta secreta de espionagem entre a URSS e a República da Coreia do Norte.

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Espião Stanislav Pushkar

O único espião estrangeiro que o departamento de contra-espionagem da KGB prendeu em toda a Ucrânia em 1980 estava trabalhando para os “aliados” norte-coreanos da União Soviética. Seu nome era Stanislav Pushkar.

Pushkar era provavelmente um recurso ideal para um serviço de inteligência hostil. Havia iniciou seus estudos em engenharia em uma boa faculdade, mas não conseguiu se formar e saiu, era divorciado, gostava de dinheiro, era inteligente e trabalhava na fábrica ucraniana de armas Arsenal-2, cuja especialidade era na reparação e manutenção de sistemas de mísseis, incluindo mísseis guiados antitanque (ATGMs) e equipamentos associados.

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Assim, um grupo de jovens militares norte-coreanos chegou à fábrica em 1970 para estudar como fazer a manutenção de ATGMs que a União Soviética considerou adequados para exportação para seu aliado não confiável. Pushkar foi oficialmente responsável por lidar com os visitantes estrangeiros.

A relação entre os norte-coreanos e Pushkar se estreitou à medida que os militares passaram a dar presentes, Ginseng (muito utilizado contra o cansaço) e licor de cobra.

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Falanga-M

Em pouco tempo o ucraniano já trabalhava para os coreanos, que havia solicitado a Pushkar, antes de partirem, cópias dos manuais classificados relacionados ao sistema de mísseis ATGM Falanga, tanto do veículo lançador quanto dos mísseis. Uma câmera suíça e números de telefone de Moscou foram entregues a ele.

A primeira missão foi um sucesso parcial. Pushkar não conseguiu acessar o manual do veículo lançador Falanga, mas ainda assim conseguiu obter o manual do míssil que o sistema usava. Ele contrabandeou o documento secreto da biblioteca do Arsenal-2, trouxe para casa e tirou fotos.

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Moscou, 1970

A partir dessa época, o ucraniano, então com cerca de 30 anos, tornou-se um espião norte-coreano operando sob o codinome “Tonghyangin”, ou “nosso aldeão”. Os agentes norte-coreanos demoraram a conseguir o filme, que foi entregue a eles em Moscou no final de 1971.

Por seus esforços, Pushkwar recebeu 500 rublos, uma quantia razoável, igual a quatro salários médios mensais na União Soviética do período. Mas é preciso ter em mente que o próprio salário mensal de Pushkar era de 300 rublos, para um técnico qualificado em uma fábrica de armas, ele era bem pago.

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Especialistas acreditam que uma das hipóteses da participação do ucraniano nas operação secretas de Pyongyang não necessariamente estava no dinheiro fácil, mas na oferta de ginseng, Pushkar acreditava que as “ervas milagrosas” ajudavam a tratar sua mãe que se encontrava doente, mantinha sua mãe viva.

A espionagem de Pushkar continuou em 1972, quando os norte-coreanos pediram a ele para obter informações sobre o sistema de radar antiaéreo RPK-1 “Vaza”, que também foi atendido em sua fábrica, mas em uma seção diferente.

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RPK-1 “Vaza”

O próprio Pushkar não teve acesso aos documentos necessários, então apresentou os norte-coreanos a outro técnico, chamado Naumov. A princípio, Naumov demonstrou pouco entusiasmo por sua missão, mas acabou fornecendo alguns materiais que eles procuravam. Naumov e Pushkar às vezes trabalhavam juntos, às vezes separadamente.

A KGB começou a alimentar suspeitas sobre Pushkar no final de 1971, e mantinham os oficiais norte-coreanos sob vigilância, inclusive os agentes realizaram uma busca secreta nos quartos dos norte-coreanos e, entre outras coisas, descobriram um memorando com o endereço de Pushkar, bem como uma pequena nota sobre suas características pessoais e codinome.

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Pushkar e espiões norte-coreanos.

Os soviéticos que sempre desconfiaram dos “aliados” norte-coreanos agora possuíam provas cabais do roubo de informações secretas.

Lembram do técnico Naumov mencionado antes, certo? Talvez os agentes realizaram uma jogada de mestre, pois a KGB realmente abordou o técnico Naumov antes mesmo que Pushkar o apresentasse aos norte-coreanos, concordou em ajudar com a contra-informação e, seguindo as instruções da agência soviética, continuou atrasando a entrega dos materiais prometidos aos norte-coreanos o máximo possível.

O plano inicial era manter Pushkar sob vigilância e então prendê-lo ou seus controladores norte-coreanos, ou então recrutá-lo para aprender mais sobre a escala da rede secreta norte-coreana operando contra a indústria militar soviética.

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As coisas não funcionaram como planejado. Durante uma viagem a Moscou em 1975 para entregar material roubado, Pushkar descobriu que estava sendo seguido, e decidiu romper com os norte-coreanos, pois não sabia ao certo quem o perseguia.

Apesar de Pushkar não ter sido processado por traição na época, a situação mudou apenas dois anos depois, quando os norte-coreanos tentaram restabelecer contato, mas agora interessados ​​em equipamentos de visão noturna e telêmetros. A KGB, sabendo desses planos, decidiu agir.

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Um agente soviético abordou Pushkar em Kiev e deu-lhe instruções supostamente enviadas pela embaixada da Coreia, acreditem, as instruções eram reais, mas o mensageiro não. Pushkar concordou em fornecer as informações aos norte-coreanos por meio de contato com terceiros, então foi finalmente preso em dezembro de 1980 e condenado dez anos de prisão, onde morreria em algum momento daquela década de forma desconhecida.

Com informações complementares Andrei Lankov, NK News, Felipe Moretti

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