Um olhar sobre a crise EUA x IRÃ

A ação militar que resultou na morte do General Qassem Suleimani, comandante da Guarda Revolucionária Iraniana, elevou ao patamar de grave crise internacional a já desgastada e difícil relação entre os Estados Unidos e o Irã, gerando apreensão quanto aos desdobramentos que o episódio do último dia 3 de janeiro promete entregar.

Após uma breve apresentação dos principais antecedentes mais próximos ao fato, este trabalho pretende realizar uma análise empírica da conjuntura adjacente, com foco no espectro geopolítico, concluindo sobre as possibilidades futuras para a estabilidade regional do Oriente Médio.

Ao longo do século XX, como um importante ator regional na Ásia, o Irã foi peça chave na condução das políticas das grandes potências para o Oriente Médio no contexto do tabuleiro da Guerra Fria. Após um longo período sob influência ocidental – em especial da Inglaterra e dos Estados Unidos –, a eclosão da Revolução Islâmica de 1979, conduzida por uma elite clerical, levou o país a se tornar uma teocracia.

Dentre os objetivos fundamentais declarados da Revolução, destacam-se:

(I) a desestabilização política do Oriente Médio e o estabelecimento de um ambiente hostil aos interesses ocidentais; e

(II) o Irã, como um Estado fundamentalista islâmico, xiita e revolucionário, estaria interessado na libertação das populações xiitas nos demais países da região.

Desde então, os Estados Unidos se deparam com uma conjuntura desfavorável aos seus interesses, tendo cambiado de importante aliado estratégico a um dos principais inimigos do regime iraniano, juntamente a Israel.

Não obstante a radical mudança nos rumos do país, o Irã se manteve como ator regional de importância inabalável, buscando expandir sua influência no Oriente Médio.

Nesse mister, o General Suleimani desempenhou fundamental papel na estruturação de uma rede de apoiadores espalhados por diversos países da região cuja consolidação se deu, dentre outras ações, por intermédio de treinamento e financiamento de milícias e grupos armados xiitas, responsáveis por contribuir para a consecução dos objetivos da Revolução.

Nesse contexto, cabe ressaltar o persistente discurso sobre a destruição do Estado de Israel e o desenvolvimento de um programa nuclear, objetos centrais do constante embate com os Estados Unidos e, por transbordamento, variáveis presentes em inúmeras avaliações de riscos atinentes à paz e à estabilidade mundiais.

Na década de 1990, recém-saído de uma guerra de oito anos com o Iraque, o Irã voltou a investir em pesquisa na área de energia nuclear. Em 2003, o país foi acusado pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) de não cumprir os termos do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, cuja adesão se deu por meio de assinatura, em 1970.

Nessa época, o Irã se comprometeu a rever seu programa nuclear, ajustando-se às regras internacionais. Em 2005, com a eleição de Mahmoud Ahmadinejad, surgiram novas acusações de desrespeito ao ordenamento jurídico da AIEA, levando o país a sofrer sanções econômicas aprovadas pelo Conselho de Segurança da ONU.

Em 2015, após anos de negociações, o Irã e seis potências globais (EUA, China, França, Reino Unido, Rússia e Alemanha) firmaram um acordo, o que viabilizou a suspensão dos embargos e, por conseguinte, garantiu um breve suspiro à já combalida economia iraniana, além de garantir estabilidade às relações do país com o Ocidente.

Em maio de 2018, cumprindo promessa de campanha, o Presidente Donald Trump anunciou a saída dos EUA do acordo, além de impor novas sanções econômicas ao Irã.

Ainda que França, Alemanha e Reino Unido tenham mantido suas posições objetivando salvar o acordo, a saída dos norte-americanos aponta para um iminente fracasso, fragilizando ainda mais as relações entre os dois países. A partir daí observou-se uma escalada de tensões, desembocando na crise ora instalada.

Entreveros no Estreito de Ormuz, ataques às instalações petrolíferas na Arábia Saudita e a derrubada de uma aeronave remotamente tripulada dos EUA somaram-se à sequência de eventos concentrada nos últimos dias de 2019 – ataque a uma base militar no Iraque, resultando na morte de um cidadão norte-americano; bombardeio a posições do grupo responsável pelo ataque no Iraque; e invasão do perímetro da embaixada dos EUA, em Bagdá –, culminando no ataque que resultou na morte de Suleimani.

Assim, a partir da resumida apresentação do conjunto de alguns dos principais acontecimentos que precederam ao evento ora estudado, é possível pontuar algumas considerações que emolduram a sensibilidade do agravamento das tensões naquela porção do globo.

Por sua representatividade, as questões intrínsecas aos tabuleiros jogados no Oriente Médio fundamentam o entendimento comum acerca da magnitude que estas representam para a estabilidade do sistema internacional.

Localizado na confluência de três continentes (Ásia, Europa e África) e concentrando algumas das maiores reservas de petróleo do mundo, a importância geopolítica do Oriente Médio é incontestável.

Algumas passagens marítimas estratégicas, centrais para o comércio mundial e para a movimentação de poder militar naval, encontram-se localizadas na região (estreitos de Ormuz e Bab el Mandeb; e canal de Suez), emprestando às rotas marítimas que passam pelo Oriente Médio relevância inconteste.

Berço de civilizações antigas, a religião incorpora significativo papel no quebra-cabeça regional. Habitada por judeus, muçulmanos e cristãos (e suas ramificações) aquela parte do mundo, historicamente, sofre influência direta de disputas inspiradas em dogmas religiosos.

Mais recentemente, a criação do Estado de Israel (1948) e a Revolução Islâmica no Irã (1979) potencializaram as tensões vinculadas a essa temática que, ao que tudo indica, tendem a se manter, de forma estendida na pauta que rege as principais tensões regionais.

A Pax americana, estabelecida pós-1945 com a finalidade de manter a hegemonia mundial dos EUA, tem sido testada na sua essência, em especial após o fim da Guerra Fria.

Ainda que a nação norte-americana concentre o maior capital de poder do Planeta – e nesse quesito os poderes militar e econômico são decisivos –, outros países (ou blocos) buscam expandir suas influências, visando à garantia de seus interesses.

Nesse contexto, pode-se afirmar que os EUA mantêm uma práxis de política externa baseada na dinâmica engajamento versus contenção de potências regionais, à medida que considere que seus interesses se vejam ameaçados. Essa dinâmica pode ser observada em toda parte do mundo e, em especial, no Oriente Médio.

Alianças são estabelecidas e desfeitas sob o supracitado paradigma, conferindo à região um grau de instabilidade elevado. Ademais, corrobora para esse quadro a inevitável presença de interesses da China, da Rússia e de países europeus, todos geograficamente mais próximos e, por conseguinte, mais sujeitos aos desdobramentos dos jogos naquele tabuleiro.

No que tange à crise atual, os discursos têm sido relativamente moderados por parte dessas nações, indicando que uma escalada nas tensões que aponte para um conflito armado não é de interesse de ninguém.

Pode-se inferir que a economia mundial, ora atravessando um período de incertezas e estagnação, contribui, sobremaneira, para um eventual retraimento das ações.

Ao analisarmos a atual crise sob a ótica das políticas internas dos países nela envolvidos, é possível identificarmos questões fundamentais para o entendimento da dinâmica das tensões.

Buscando ser coerente com a pauta de sua campanha à presidência dos EUA (2016), o Presidente Donald Trump impôs à sua política externa o desafio de reduzir a presença militar norte-americana no mundo.

Essa postura não-intervencionista – contrária à tradição do partido Republicano – encontra respaldo na sua base eleitoral, em especial porque acena com a possibilidade de redução de gastos oficiais fora do país, o que beneficiaria, em tese, a economia interna. É o America first.

Já como Presidente, Trump endureceu as relações com o Irã, especificamente no que tange à tentativa de constranger seu programa nuclear. O agravamento das sanções econômicas impostas ao país médio-oriental levou a uma reação, o que tem indicado a intensificação de uma postura estratégica mais agressiva por parte do regime iraniano.

Acuado por pressões internas da sua população, que vem vivenciando uma degradação de sua qualidade de vida em razão da crise econômica provocada pelas sanções, o regime dos aiatolás optou em “esticar a corda” das tensas relações com os EUA.

Ao adotar um posicionamento estratégico baseado em ações ofensivas, o Irã busca possíveis brechas para retomar uma negociação que lhe seja mais favorável. Na sua análise de risco, considerou a possibilidade de uma postura mais passiva por parte dos EUA. Como vimos, não foi o que aconteceu.

Conforme teorizado por Hans Morgenthau, “a política interna e a política internacional nada mais são do que duas manifestações diferentes do mesmo fenômeno: a luta pelo poder”. Considerada essa premissa, é possível inferir acerca das posturas adotadas pelos EUA e pelo Irã diante da escalada das tensões.

Em campanha pela reeleição, Trump tem a possibilidade de capitalizar uma eventual “vitória” no campo internacional, o que seria muito providencial haja vista as críticas sofridas em razão do pouco (ou nenhum) sucesso frente ao acordo com a Coreia do Norte, da tentativa de uma resolução mais rápida para a crise na Venezuela e do desgaste face ao “abandono” dos aliados curdos na Síria.

A um custo relativamente baixo, o candidato à reeleição poderá apresentar-se para os debates políticos com um trunfo na política externa até agora relevante, o que agregado à excelente situação da economia norte-americana, poderá confirmar seu favoritismo na corrida à Casa Branca.

Do lado iraniano, um eventual abrandamento das pressões internas sobre o regime dos aiatolás (no poder há 40 anos), em razão do reerguimento do sentimento nacional em torno de um evento internacional – a morte de Soleimani –, fortalece o poder central teocrático e cria condições para o prosseguimento (em melhores condições) de sua política de consolidação do país como potência regional no Oriente Médio.

Corrobora para essa assertiva a possível saída das tropas norte-americanas do Iraque, após proposição do Poder Legislativo daquele país, concretizada no dia 5 de janeiro de 2020.

O Irã, como potência regional do Oriente Médio, busca expandir influência no seu entorno. Ao persistir no desenvolvimento de um polêmico programa nuclear, potencializa o clima de instabilidade na região, motivo de preocupação para uma plêiade de países, em especial para vários de seus vizinhos, alguns deles hoje alinhados com o Ocidente.

Israel, potência militar e principal aliado regional dos EUA é, sem sombra de dúvidas, a nação mais ameaçada caso o Irã seja exitoso na obtenção da capacidade militar nuclear.

Dessa forma, o nó estratégico a ser desbaratado está intimamente associado à derrogação (ou não) do intento iraniano em obter a capacidade dissuasória nuclear, o que daria ao país uma liberdade de ação considerável para a consecução de seus objetivos políticos.

Segundo o modelo estratégico de André Beaufre, o Irã passaria a integrar o conjunto de países que poderiam empregar a ameaça direta de forma efetiva, tornando-se, portanto, uma ameaça aos interesses do Ocidente e de seus aliados.

Ao concluir, pode-se afirmar que prevalece o sentimento de incerteza quanto ao limite das tensões entre Irã e EUA, ainda que a comunidade internacional tenha empenhado esforços para um desfecho brando.

A assimetria de poder – militar e econômico – impele para uma desescalada das ações, principalmente em razão das acomodações decorrentes das atividades mais recentes.

Todavia, as incertezas quanto ao futuro do programa nuclear iraniano tendem a permanecer, gerando expectativas quanto às possíveis estratégias a serem empregadas pelo país para bancar a sua manutenção.

Em discurso realizado em 08 de janeiro de 2020, Trump iniciou suas palavras afirmando que “enquanto for Presidente dos EUA, o Irã nunca terá uma bomba atômica”. Parece ser essa a questão central que irá pautar a agenda das relações internacionais no Oriente Médio, cujos tabuleiros ali jogados tendem a permanecer influenciando o grande jogo de poder mundial.

  • Fonte: E-Blog
  • O Autor do presente artigo, Sr° Guilherme Otávio Godinho de Carvalho, é Coronel (R/1) da arma de Artilharia do Exército Brasileiro. Atualmente é Analista do Centro de Estudos Estratégicos do Exército, vinculado à 3ª Subchefia do EME. Mestre em Ciências Militares (ECEME – 2005/2006) e Mestre em Relações Internacionais (UnB – 2017/2018). Especialista em Inteligência Militar (EsIMEx), Política e Estratégia de Defesa (William J. Perry Center, NDU) e Relações Internacionais (UnB). Foi Oficial de Inteligência do Batalhão de Infantaria de Força de Paz junto à Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH), Analista do CIE, Assessor Militar no MD e Comandante da Base de Administração e Apoio do CMP.