Uma corrida armamentista nuclear muito mais perigosa está em curso

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Imagine o alvoroço se as populações inteiras das cidades de  York, Portsmouth ou Swindon, no Reino Unido, fossem subitamente expostas ao triplo do nível permissível de radiação gama penetrante, que o físico nuclear Ernest Rutherford denominou “raios gama”. Gritos de dor e medo seriam ouvidos em todo o mundo.

Foi mais ou menos isso que aconteceu, aos cerca de 200 mil habitantes da cidade de Severodvinsk, norte da Rússia, no dia 8 de agosto, após explosão em uma área ultrassecreta de testes de mísseis, na região.

O serviço meteorológico da Rússia, Rosgidromet, registrou níveis de radiação até 16 vezes mais altos que a taxa ambiente usual. O incidente foi recebido, no entanto, com um silêncio irritante pela Rússia. Demorou cinco dias para que, as autoridades confirmarem que uma explosão na área de Nyonoksa resultou em várias mortes, incluindo cientistas nucleares.

Nenhum pedido de desculpas fora feito aos moradores de Severodvinsk. Ainda há pouca informação confiável. “Acidentes, infelizmente, acontecem”, disse um porta-voz do Kremlin.

Essa insensibilidade não é universalmente compartilhada. De acordo com especialistas ocidentais, a explosão foi causada por uma falha no lançamento de um novo míssil de cruzeiro movido a energia nuclear, uma das muitas armas avançadas desenvolvidas separadamente pela Rússia, pelos Estados Unidos e pela China em uma acelerada corrida armamentista global.

Vladimir Putin revelou o míssil, conhecido na Rússia como Tempestade Petrel e pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) como Skyfall, em março deste ano, afirmando que seu alcance e manobrabilidade ilimitados o tornariam “invencível”. As bravatas do presidente russo parecem menos críveis agora.

Mas Putin é difícil de ser contido. Negando sugestões de que o míssil não é confiável, o Kremlin insistiu que a Rússia está vencendo a corrida nuclear. “Nosso presidente disse repetidamente que a engenharia russa nesse setor supera significativamente (…) outros países”, disse um porta-voz.

Agora, avancemos para 16 de agosto, e outro acontecimento ameaçador: o teste pela Coreia do Norte de mísseis balísticos potencialmente nucleares, na 6ª rodada de lançamentos desde julho.

Mais de dois anos de diplomacia de Donald Trump, e ainda não convenceram Pyongyang de que é seguro abandonar suas armas nucleares – a prova, caso fosse necessária, de que iniciativas unilaterais contra a proliferação de armas não funcionam.

Especialistas em controle de armas dizem que falta uma abordagem internacional consistente e combinada, lamentavelmente. Assim, o arsenal nuclear não declarado de Israel é tolerado, e a ideia de uma bomba desenvolvida pela Arábia Saudita não é mais descartada.

Mas o menor indício de que o Irã possa construir uma arma nuclear é recebido com megatons de horror hipócrita. De certo modo, o problema é circular.

Putin argumenta que o crescimento militar da Rússia é uma resposta aos movimentos desestabilizadores dos Estados Unidos para modernizar e expandir seu próprio arsenal nuclear – e ele tem razão.

O ex-presidente Barack Obama desenvolveu um plano de US$ 1,2 trilhão para manter e substituir a “tríade” de armas nucleares aéreas, marítimas e terrestres dos EUA. Trump foi muito mais longe.

A revisão da postura nuclear do Pentágono, publicada no ano passado, propôs mais 500 bilhões de dólares em gastos, incluindo US$ 17 bilhões para armas nucleares táticas de baixo rendimento, que poderiam ser usadas em campos de batalha convencionais.

A primeira dessas novas ogivas deve se tornar operacional no próximo mês. Críticos no Congresso dizem que armas de baixo rendimento tornam mais provável a guerra nuclear, e se opõem aos aumentos orçamentários de Trump.

Mas, com os planejadores americanos dizendo que a maior ameaça à segurança nacional não é mais o terrorismo, e sim os países com armas nucleares, há pouca dúvida de que muitos novos projetos de armas conseguirão o aval.

A corrida armamentista nuclear renovada é um produto da perspectiva “os EUA em primeiro lugar” de Trump e de regimes ultranacionalistas e inseguros comparáveis em outros lugares.

A ênfase de Trump na defesa da “pátria” leva inexoravelmente à militarização da sociedade, seja na fronteira mexicana, seja nas ruas centrais das cidades ou na sua abordagem da segurança internacional.

“Temos muito mais dinheiro do que qualquer outro”, disse Trump em outubro passado. “Vamos nos armar até que (Rússia e China) recuperem o juízo.” A superação da oposição foi uma tática empregada por Ronald Reagan nos anos 1980. Em geral, os gastos militares anuais dos EUA vão aumentar de US$ 716 bilhões neste ano para US$ 750 bilhões no próximo.

O paradoxo é que, mesmo com o aumento do risco de confronto nuclear, o sistema de tratados da Guerra Fria que ajudaram a evitar o Armagedom tem sido desmantelado, em grande parte por ordem de Trump.

No início deste mês, os Estados Unidos se retiraram do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário de 1987 com a Rússia (o que livrou a Grã-Bretanha e a Europa de mísseis americanos implantados no início dos anos 1980).

Os EUA também sinalizam que não renovarão o tratado de armas nucleares New Start, que vai expirar em 2021.

Washington alega que Moscou traiu o pacto INF, a Rússia nega. Mas a verdadeira preocupação de Washington é que ambos os tratados a deixem de mãos atadas, especialmente em relação à China – outro exemplo do impacto do pensamento “os EUA em primeiro lugar”.

Um exemplo terrível que esses adversários em armas nucleares dão aos Estados não nucleares, como o Irã, é óbvio.

Ao falhar em manter os acordos de controle de armas, negligenciar esforços colaborativos de contraproliferação e construir novas armas, mais “utilizáveis”, perigosamente não testadas, como a que irradiou Severodvinsk, as potências nucleares cavam suas próprias sepulturas… E as nossas também.

1 COMENTÁRIO

  1. Só podia ser reportagem do The Guardian, é a política eu tenho, você não pode ter, assim pode se impor o terror, nos países que são pacíficos, assim como esse idiota do macron. Vejam se ele banca de machão com a expansão da China no mar, ou com a anexação da Criméia pela Rússia, portanto ou o Brasil também se arma, ou será sempre o bobo da corte.

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