Uma Herança honrada que se esvai e esquecemos….

Hoje  devido a um comentário do meu amigo e xará e também filho de veterano, João Barrone, no meu facebook em uma foto da FEB aonde aparece  meu pai, eu me peguei aqui pensando – Tive a honra de ter um pai que foi a guerra e me contou coisas sem qualquer drama ou trauma e como ele viu aquela experiência marcante difícil e traumática de ter sido, um expedicionário da FEB (Força Expedicionária Brasileira), que lutou entre 1944 e 1945 na Segunda Guerra Mundial.
Lembro de cada uma das suas historias e devido a um irmão que roubou quase tudo em casa por causa de seu vício hoje só me restam as lembranças fotos e poucas anotações, pois o que este não furtou, o cupim não respeitou. E de material só me resta umas poucas coisas e seu bordado com o desenho de uma cobra fumando cachimbo da sua farda. Ele me deu uma delas – que conservo até hoje. Eu já sabia que o desenho era uma alusão ao descrédito das pessoas de seu tempo em achar que o Brasil não participaria da Grande Guerra, pois diziam que era mais fácil uma cobra fumar cachimbo do que o Brasil entrar naquela grande guerra.
 
Foi uma época difícil. Primeiro a perda de dois irmãos em naufrágios, depois convocação, saber que teria que ir a outro país e enfrentar perigos os mais diversos. Do serviço junto ao meu avô como aprendiz de linotipo no Correio da Manhã e junto aos italianos que dominavam as capatazias de jornais, aonde ele aprendeu o italiano dos judeus que eram abrigados por Teixeira de Castro e meu avô – que empregavam eles como linotipistas e técnicos para justificar a entrada no Brasil como mão de obra e não serem mandados de volta a Europa, ele aprendeu o  Italiano, o Alemão e o idiche, e do dia para a noite, passou a empunhar armas para servir à Pátria. Meu avô já tinha lutado em uma revolta e na Revolução de 1930 seguiu com Vargas do Rio Grande do Sul até o Rio de Janeiro, para depor o governo de Washington Luís e sabia o que seu filho ia ver no meio de uma guerra e mesmo assim entregou seu ultimo filho ao perigo de morte.
 
Foram enviados 25 mil pracinhas à Itália, registrados 443 mortos e cerca de 3 mil feridos. Dois mil e quinhentos do total de soldados brasileiros enviados tiveram graves mutilações e ficaram em hospitais dos Estados Unidos.
 
Quantas famílias não choraram a separação de seus filhos. Pais e mães que criaram os filhos para o trabalho e viviam no campo viveram o desespero e o medo de perder os filhos na guerra.
 
O Brasil, governado por Getúlio Vargas, não era um governo democrático, mas aliou-se com as potências, chamadas de Aliados, como Grã-Bretanha e Estados Unidos, contra os países do eixo, Alemanha(nazista), Itália(fascista) e Japão, depois de afundados navios brasileiros por submarinos Alemães em 1942, aonde como já disse meus tios Itamar e Edgar foram mortos.
 
Os nossos pracinhas vindos dos trópicos lutaram na Itália libertando as cidades de Massarosa, Camaiore e Monte Prano e enfrentou os rigores do inverno nos Apeninos. A tomada de Monte Castelo foi crucial a favor dos Aliados pois o exército alemão tentava conter as forças aliadas no Norte da Itália. Foi a batalha que marcou heroicamente a presença da Força Expedicionária Brasileira no grande conflito Mundial.
 
O Brasil enviou os expedicionários para combater ditaduras da Alemanha de Hitler e Mussolini da Itália, ambos com planos expansionistas e contra a democracia e a liberdade, e principalmente matando e  fazendo sofre milhares mundo afora, tal como hoje vemos na Venezuela aqui do lado de nosso país.
 
Conversando com ele eu muitas vezes percebia em seus relatos a correlação entre os costumes de lá da Itália com os daqui. A humanidade é a mesma em qualquer lugar e seu desabafo de que os povos são iguais o que varia é a língua, e que  não podemos nos esquecer disto ou os tratar como menos  humanos em decorrência de seus governos. Nas cidades cheias de escombros famílias sobreviviam em meio à morte, o frio e o medo. E foram muitos os perigos. Não me recordo de tudo, mas ouvi muitas histórias. Os amigos que se foram, alimentos divididos com solidariedade, dias de frio intenso, muita disciplina e fé, muita fé para voltar com vida ao Brasil e rever seus familiares. Lembrava em suas histórias sempre o aspecto humano e sempre o vi como um homem extremamente religioso. Cumpriu seu dever com a Pátria e lutou a favor da democracia até seu ultimo dia.
 
Hoje, quando ouvimos o termo fascista e nazista logo nos lembramos de Mussolini e Hitler, lembramos de coisas tristes pelas quais a humanidade passou. Que fiquem no passado. Respeitemos a memória daqueles que lutaram contra a pior forma de autoritarismo: a acusação imprópria de um termo impróprio a quem quer que seja, tão usado hoje por idiotas de esquerda que  nada sabem de historia e tentam qualificar outros com esta peche, sem se importar com  o que acontece aqui  do nosso lado.
 
Mas vejo na geração atual um descaso com sua própria historia, recentemente foi a data magna desta campanha e de nada sabem, vejo que o nosso legado pouco ou nada é passado adiante para a geração atual, esta faz descaso e abraça ideologias que nada tem a ver com a nossa natureza histórica de buscar a paz.
 
Mesmo vendo ao lado de nossa fronteira o genocídio de um povo que é morto por querer pegar comida, e que nada podemos fazer para os libertar, pois a constituição atual nos amarra ao imobilismo e descaso humano.
 
Isto não aconteceria naquela geração, ISTO NÃO DEVERIA ACONTECER NESTA OU EM NENHUMA SE SOUBESSEM DESTE LEGADO!, mas infelizmente acontece, e vejo até quem defenda este genocídio apenas para defender idiotices ideológicas.
 
Sinceramente, esta já não é mais a sociedade que eu fui criado por bravos para  poder viver, não há mais o senso de humanidade e da Justiça e temo que exemplos como o de meu pai vão se perder na poeira da história.
 
Fica aqui a minha esperança de que minha filha leve esta chama adiante por mais tempo, e o lamento de ver um povo amigo sofrer aqui ao lado e não podermos lhes ajudar como no passado já ajudamos o mundo todo lutando na Italia.
 
JG

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